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A arte (a música) abstrata

No dia mundial da música, proponho a reflexão sobre o problema o que é a arte abstrata?; e, mais concretamente, o que é a música abstrata?.

1.

A arte abstrata, lê-se na Wikipédia,  é

uma forma de arte (especialmente nas artes visuais) que não representa objetos próprios da nossa realidade concreta exterior. Ao invés disso, usa as relações formais entre cores, linhas e superfícies para compor a realidade da obra, de uma maneira ‘não representacional’ [negrito meu].

A arte abstrata “tem um sentido intelectual ou emocional (ou ambos), mas não representa nem imita qualquer objeto ou figura visível” (CUMMING, Robert. Arte. Porto: Civilização, 2006, p. 358).

Kandinsky - Sem título[Kandinsky – Sem Título]

Em 1910, Kandinsky executou a primeira obra artística deliberadamente abstrata, uma aguarela em que não havia referências figurativas de nenhum tipo, onde a realidade circundante era “dissolvida”. Este pintor russo, bom amante da música, estabeleceria uma relação entre as cores e as formas musicais (aludindo frequentemente à sonoridade das cores e comparando estas com determinados instrumentos musicais), defendendo a evolução da pintura para a composição puramente pictórica (à semelhança da autonomia da composição musical).

2.

Portanto, a obra de arte abstrata procura o valor intrínseco das formas, das cores, dos gestos, dos sons (e os seus efeitos no espírito humano). Assim, a música abstracta procura exprimir puras ideias musicais, eliminando qualquer relação extra-musical. Não estaria incluída nesta designação a música ligada à palavra, como a dramática (ópera, opereta, zarzuela,…) ou a cantada não dramática, como o lied.

[Gretchen am spinnrade, lied de Schubert, na voz de Kiri Te Kanawa]

Distinta da música abstracta é também a música programática ou a descritiva (que já procurei caracterizar aqui e aqui); embora não associadas à palavra, contêm referências a fenómenos extra-musicais, como um poema (como é o caso do poema sinfónico, cujo discurso musical, embora não contendo texto, segue um guião ou argumento literário):

[Don Juan, poema sinfónico de Richard Strauss]

3.

Convido o meu leitor a ouvir novamente, se necessário, as duas peças musicais anteriores, tendo em consideração as observações seguintes:

Pode acontecer que o meu leitor não saiba alemão e, por isso, não entenda o que Kiri Te Kanawa canta no lied de Schubert. Pode mesmo acontecer que, por isso ou por outra razão qualquer, atenda apenas à música, considerando que as palavras constituem… música interpretada por um instrumento a que chamamos voz.

Com isto quero pôr a hipótese de que, quando consideramos a música, o importante é o que a própria música exprime, o que ela quer dizer — e o que a música, toda a música, quer dizer encontra-se na música, como acentuava Bernstein (ouveja-o no vídeo apresentado no texto O que a música exprime).

Se assim for, poderíamos concluir que toda a música é abstrata? que não há, sob este ponto de vista, diferença essencial entre as duas peças musicais anteriores e, por exemplo, uma obra musical puramente instrumental, como este Capricho de Paganini?:

Para concluir, proponho um exercício: a audição do belíssimo Agnus Dei, da Missa da Coroação de Mozart.  Trata-se de música religiosa, não abstrata:  no cristianismo, Agnus Dei (em latim, Cordeiro de Deus) refere-se a Cristo como vítima oferecida em sacrifício pelos pecados dos Homens; na missa católica, o Agnus Dei (Cordeiro de Deus que tirais o pecado do mundo, tende piedade de nós) é uma oração que se reza pouco antes da Comunhão e tem sido musicada, ao longo dos tempos, por vários compositores.

Ouça novamente a peça musical anterior, mas “esquecendo” que se trata de um Agnus Dei, “não entendendo” o que as palavras dizem,… Pergunto:  a música perdeu o seu encanto, por ter “esquecido” isso? passou a significar menos?

“O significado da música está na música, e em mais parte nenhuma”, afirmou Bernstein. Concorda?

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