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A democracia dos idiotas

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Claves de la razón práctica

O tema forte do número 228 (maio/junho de 2013) da revista espanhola Claves de Razón Práctica (atualmente, dirigida por Fernando Savater) é a banca, que, com os políticos, encabeça as listas dos rankings dos acusados como responsáveis pelos males económicos e sociais de que padecemos.

Idiotas o ciudadanos?

No mesmo número, publica-se uma versão abreviada da Introdução a ¿Idiotas o ciudadanos?. El 15-M y la teoría de la democracia, da autoria de Félix Ovejero. Nesse texto, o autor parte de uma constatação, fundamentada na sociedade estado-unidense: a oceânica ignorância dos eleitores relativamente aos critérios de eleição dos seus representantes; como dizia Churchill, o melhor argumento contra a democracia é uma conversa de cinco minutos com o votante médio.

Em seguida, procura mostrar como essa suposta ignorância está na origem de duas conceções políticas: o populismo e a tecnocracia (ou despotismo ilustrado). Se a primeira se apresenta como “superlativamente democrática e a outra, não”, na realidade “as duas atentam contra a melhor versão da democracia: a proposta populista esquece-se da deliberação; a proposta tecnocrática, da participação”.

Para o populismo, as opiniões aceitam-se como um dado, sem que interesse a sua qualidade: não há lugar para a deliberação, para a exposição contrastada de pontos de vista; as decisões ‘democráticas’ afastam-se da justiça — para, na melhor das hipóteses, procurar atender ao número máximo de preferências. Para se detetar o caráter não democrático do populismo, bastará analisar duas das suas versões: o nacionalismo e o “populismo das sondagens”. A primeira, “a mais primitiva e mais perigosa” e a “das horas mais sinistras da história europeia”, apresenta os líderes políticos como encarnação ou intérpretes da ‘vontade do povo’, destinados a realizar ‘missões históricas’. A segunda leva os governantes a adotar ou prometer políticas em que não acreditam mas que, no seu entender, lhes asseguram a  vitória eleitoral; o princípio mais geral é o de que com más notícias não se ganham votos.

As propostas tecnocratas quase se diriam “mais decentes, mais honestas, ou pelo menos mais próximas do objetivo da política: resolver os problemas da vida partilhada, o que requer, como primeiro passo, não os ignorar”. Trata-se de, para resolver os problemas, ‘corrigir’ ou mesmo suspender a democracia [onde é que eu já ouvi isto? ;-)], atendendo às ‘regras do jogo’, independentemente da vontade popular. As propostas têm vindo dos mais diversos pensadores, alguns de notável ‘limpeza intelectual’: recordamos Platão e os reis filósofos, ou Bertrand Russell e a ideia de um governo mundial (no contexto da guerra fria), ou Wolfgang Harich, e o seu socialismo ecológico-autoritario (segundo o qual “a solução dos reptos — ambientais, de recursos, povoamento, etc. — nos quais estamos empenhados requer uma correção de comportamentos de tal magnitude que, se queremos preservar uma vida medianamente digna para todos, dificilmente poderemos permitir-nos o luxo das liberdades democráticas tal como as conhecemos”).

Em conclusão, parece que estamos lançados num triste dilema: “ou ignoramos — ou mesmo agravamos — os problemas e mantemos a decoração democrática ou lhes fazemos frente e esquecemos qualquer indício de democracia e até de liberdade. Ou até pior: o terrível é que, se as coisas são deste modo, nem sequer há dilema — a segunda alternativa seria a única política realista, capaz de encarar os problemas. O terrível, para ser exatos, é que nem sequer há qualquer garantia de que a opção autoritário-tecnológica, desprovida por definição da possibilidade de controlos efetivos, fiáveis, não desencadeie outras patologias de maior envergadura. […] Em qualquer caso, o que parece seguro é que a democracia, para o importante, ficaria suspensa. Em síntese: a verdade talvez seja revolucionária, mas, de qualquer modo,  não ajuda a ganhar eleições”.

Para terminar:

“A pergunta é se há lugar para outra ideia de democracia capaz de abordar os problemas sem ignorar a voz de uns cidadãos que não são santos nem sábios”.

Deixo ao leitor

  • o texto completo (em espanhol) [a seguir];
  • o desafio de responder à pergunta final de Félix Ovejero (ou de discordar dele. Ou de reforçar a sua concordância com ele).

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