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Agostinho da Silva [5/5]

Quanto ao Portugal passado e ao futuro anunciado

As teses que nos deixou sobre a origem e o destino de Portugal, põem em evidência o papel de S. Bernardo de Claraval e das Ordens Monásticas tendo ainda considerado o reinado de D. Dinis como o período áureo de um Portugal que entrou em declínio no século XV e seguintes com o triunfo, entre nós, dos ideais renascentistas, do direito romano e dos efeitos da Reforma.

Rejeitou a existência de um pensamento filosófico em Portugal e criticou o saudosismo e o fado, considerando-os perniciosos para o conjunto da nação portuguesa.

Elogiando a vocação para a acção própria dos portugueses e a sua missão de Paz, atribuiu um papel importante na construção do futuro do Mundo ao Povo português, condenando de forma veemente a União Europeia.

As suas propostas reformistas tinham um claro sentido político que se tornava evidente na assunção implícita de um patriotismo nacionalista e monárquico.

Agostinho foi um acérrimo defensor da vocação atlântica de Portugal, o que o levava a defender a aliança luso-britânica, por lhe parecer ser anti-europeia, tal como, em sua opinião, acontecia com o iberismo cultural. O seu atlantismo levou-o a considerar o Brasil como um prolongamento natural de Portugal.

Considerou Camões, o Padre António Vieira e Fernando Pessoa como os principais profetas do destino de Portugal, e tentou conciliar numa só doutrina os messianismos quinteimperialistas pensados por cada um deles, ao mesmo tempo que associou o Quinto Império ao reino do Espírito Santo, alargando o conceito de Pátria como língua ao conceito de Pátria como língua e cultura portuguesas. Em relação ao novo Império, o Padre António Vieira forneceu-lhe o modelo de acção política, enquanto que Fernando Pessoa lhe forneceu o modelo de vivência espiritual.

Se na globalidade concordou com a interpretação histórica de Portugal que nos deixaram Alexandre Herculano, Oliveira Martins e António Sérgio, também viu nestes historiadores a grave lacuna de revelarem total falta de visão atlântica e universalista em relação a Portugal.

Quanto a Portugal e ao futuro da Humanidade, Agostinho da Silva não foi um decadentista mas um utópico, pois todas as suas críticas sobre a organização política de Portugal e do Mundo assentavam na firme convicção de que, apesar de todas as dificuldades, o futuro seria pródigo para a Humanidade.

Características essenciais do seu pensamento: desde muito cedo que revela uma certa coerência, mesmo que se expresse por um misto de ideias contraditórias balançando entre a sensação/instinto e a razão/intuição; visão optimista do mundo, temperado por um sentimento individualista mas não egoísta; sentido do todo que se sobrepõe ao somatório das partes; defesa da novidade na continuidade; desprezo pelas instituições e defesa incondicional da não-propriedade pela vivência comunitária; espírito de cruzada e de missão, ilustrado pela assunção de um núcleo de características que pensava serem próprias dos portugueses, a saber, audácia, capatazia, biscate, culto do imprevisível; aceitação do sentido providencialista da História e do lugar de charneira que Portugal deveria ocupar no futuro da Humanidade; fé profunda em Deus, um Deus universal e ecuménico e não somente cristão ou outro; arreigada crença no simbolismo do culto popular do Espírito santo enquanto proposta de forma de vida mais adequada às sociedades.

[Artur Manso]

[Este é o último texto de uma série de cinco. O anterior: Ideias filosóficas. O primeiro: A sua vida e a sua obra]

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Um Comentário »

  • eduardo diz:

    Bom dia.

    Navegando em busca de um texto do Pe. Vieira sobre o futuro, encontrei teu blog que me deu satisfação em lê-lo.

    Ainda ouví Carmine Burana no meu trabalho.

    Meus parabens

    Eduardo Cantarelli – Belo Horizonte – Minas Gerais- Brasil.

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