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Analogia

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  1. Um dia destes, na Sic Notícias, Manuela Ferreira Leite defendia o aumento do número de alunos por turma (anunciado pelo Ministério), com o argumento de que, no seu tempo, as turmas tinham mais de 30 alunos… e a coisa até funcionava.

A comparação de situações (países, épocas, pessoas,…) diferentes é uma forma de argumentar tão frequente quanto perigosa: as falácias espreitam em cada esquina. Para se perceber quão frágil é a argumentação da ex-ministra, basta pensar que, no seu tempo, também era habitual os alunos serem corrigidos ao toque, por vezes bem violento, das palmatoadas: poderemos defender, a partir dessa constatação, o regresso da palmatória?

  1. O argumento em questão é, de certo modo, uma analogia: comparam-se duas coisas diferentes, a partir de aspetos comuns que as tornam semelhantes: se A é semelhante a B nalguns aspetos, então outros aspetos de A deverão também existir em B. O argumento por analogia é usado, por exemplo, na célebre prova da existência de Deus conhecida como argumento do desígnio: o mundo é semelhante a uma obra de arquitetura, pelo que é razoável admitir a existência de um arquiteto – Deus – responsável pela sua criação e o seu funcionamento. Também Ferreira Leite compara duas épocas diferentes, tomando como critério de comparação a situação de ensino-aprendizagem, comum a ambas, concluindo que, se numa época, se aprendia em turmas com mais de 30 alunos, atualmente se pode aprender também.
  1. Para que uma analogia legitime uma conclusão, requer-se que sejam fortes as semelhanças entre as coisas comparadas, na perspetiva da conclusão. Assim, para justificar o voto das mulheres, as semelhanças entre o homem e a mulher são fortes (e dispenso-me de as referir) e as diferenças não são significativas; mas, se, em vez do voto, estiver em causa uma relação heterossexual, as diferenças entre homem e mulher tornam-se relevantes e é ilegítimo concluir (ao contrário do direito ao voto) que é indiferente que se trate de um homem ou de uma mulher.

Para defender a homeopatia (uma medicina alternativa segundo a qual o que causa determinados sintomas pode curar-se com algo que cause esses mesmos sintomas), alguns homeopatas argumentam com o fenómeno da ressonância: se um piano na extremidade de uma sala tocar uma nota, a mesma corda de outro piano na sala irá reverberar. Mas não há semelhanças significativas entre a reverberação e a cura de organismos – as diferenças entre as duas coisas comparadas são, em número e qualidade, demasiadas para legitimar a conclusão pretendida.

  1. No ensino, há igualmente (ou pretende-se que haja) diferenças significativas entre os tempos da estudante Ferreira Leite e os atuais. Poderiam referir-se várias, mas destaque-se apenas esta: genericamente caracterizados, os dela eram tempos de o professor “despejar matéria” e de o aluno a decorar – e, se este o não conseguisse,… paciência! Quer-se, hoje, investir no trabalho do aluno e construir uma escola inclusiva, de sucesso; e uma escola assim só pode basear-se numa relação muito personalizada do professor com o aluno; e esta personalização é incompatível com turmas de muitos alunos.

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