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As charolas

A designação de Charola, no Algarve, parece estar muito ligada à imagem do Deus-Menino, de pé, no alto de uma armação composta por caixas de diferentes tamanhos que, sobrepostas, formam um trono em escadaria. Por extensão, significa também o grupo de pessoas (cantadores, músicos e acompanhantes) que percorre os povoados, na época natalícia, cantando e/ou tocando de porta em porta. No entanto, o termo é muito polissémico. No mês de Junho, já pode significar o enfeite que se coloca no topo dos mastros, nas festas dos Santos Populares.
[…]

Perspectiva histórica das Charolas

Crê-se que as Charolas, entendidas como grupos de pessoas (cantadores, músicos e acompanhantes) que na época natalícia percorrem os povoados, cantando e tocando, se têm manifestado desde tempos ancestrais. De acordo com os relatos de pessoas mais idosas, é parecer comum que as Charolas já existiam antes do final da 1ª Grande Guerra, mas cantavam ao Deus-Menino. As Charolas seriam grupos de cantares de presépio que progressivamente adquiriram outras características e funções. Esta evolução parece ter ocorrido em vários grupos que progressivamente se foram constituindo nos mesmos moldes.

Uma apresentação

Executando a Marcha de Entrada, só com instrumentos, o grupo dirige-se para o local de apresentação até se instalar convenientemente. Ao som do apito, normalmente um curto e um longo, a música termina no momento da cadência final seguinte.

Tem então lugar o Estilo do Começador. Nalguns grupos, a composição musical correspondente ao Canto Novo designa- se Estilo do Começador. A designação estilo significa melodia, canção. Sendo as canções criadas de novo tomaram noutros locais a denominação de Estilo Novo (ou Canto Novo), por oposição ao Estilo Velho (Canto Velho) que correspondia às canções natalícias, com referências explícitas de louvor a Deus-Menino e relatando episódios bíblicos. A música correspondente ao Estilo do Começador, em compasso binário, tem normalmente duas partes: uma sem canto, com todos os instrumentos a tocar, em andamento mais rápido, para permitir o acompanhamento da pancadaria, outra mais lenta, para proporcionar o canto do começador, com letra de improviso, saudando as instituições que promoveram a apresentação e as pessoas que se encontram a assistir, é acompanhada somente pelos acordeãos. A ligação entre ambas as partes é feita exclusivamente por estes instrumentos (acordeãos), com carácter ad libitum. Este esquema estrófico alternando entre canto e tutti instrumental é repetido até nova ordem (apito) do começador.

Curiosamente, embora o Estilo do Começador se associe ao Canto Novo, conserva ainda alguma referência ambiental com o Estilo Velho, sobretudo pelo carácter emotivo que sugere e pretende transmitir (quando o começador canta é quase como no Fado, é sagrado, esse momento é sagrado).

Segue-se a Valsa das Vivas, momento alto da performação. É agora que terá lugar a satisfação ou não dos espectadores e a validação do nível de qualidade do grupo: a sua criatividade, o inesperado das situações evocadas, a oportunidade da crítica política, o simples retrato social e a lembrança dos que não podem ser esquecidos e que determinam o poder, o afecto, a amizade, a compreensão ou o desafio (retratar, saudar as pessoas, muitas vezes em tom de brincadeira, certas piadas, certas malandrices, que às vezes só o visado é que percebe). É o reino do improviso com regras explícitas.

A música pára quando o improvisador fala para levar toda a gente a gritar: Viva!. Esta acção de despoletar o entusiasmo chamam-na “tirar Vivas”. O discurso tem que ser formado por quatro versos com rima do tipo “abab” ou “abba”, ou por sextilhas. A sua finalidade é sobretudo causar o riso ou a admiração. Por vezes tem somente a função de saudação.

No entanto, o jogo que se estabelece e as cumplicidades assumidas tornam esta fase extremamente interessante, sem fim (uns somos o fermento dos outros: há o Zé que tira uma Viva sobre um tema ou uma pessoa e faz lembrar o António).

A música utilizada na Valsa das Vivas é formada por duas partes: uma em modo menor e outra que modela à relativa maior. Ambas as partes se repetem em esquema do tipo “aabb”, sendo “a” no modo menor e “b” no maior. A primeira das duas partes “aa” e “bb”, embora termine no acorde da tónica, corresponde-lhe uma melodia que não termina na tónica. A tónica só se afirma melodicamente na segunda vez de cada parte.

Quando o começador apita, ao sinal de um qualquer dos elementos ou até mesmo de alguém no público que quer tirar Vivas, a música completa a volta, acabando na próxima cadência que lhe permita terminar a parte em que está. Quando o momento de terminar chega, normalmente pela necessidade de dar a vez a outros, ou pelo facto de se sentir ser o momento de pôr um ponto final no assunto, o começador apita várias vezes anunciando o final da Valsa e não apenas o fim de uma volta para alguém tirar Vivas.

Por último tem lugar a Marcha de Saída. Mais uma vez trata-se de uma marcha com carácter vivo e de despedida. Esta Marcha tem canto. Há um refrão longo que tende a exaltar as virtudes do grupo, a sua boa disposição e alegria em participar nas Charolas. Há um esquema formal para o conteúdo da mensagem da Marcha de Saída. Primeiro, procede-se à identificação do grupo. Depois faz-se uma saudação, em geral. Finalmente, expressa-se a despedida com votos de Bom Ano, saúde, felicidade e gratidão, sendo comum exaltar-se a bandeira e o pendão do grupo.

Este esquema em 4 partes, nas actuações públicas em palco, tem normalmente uma duração de cerca de meia hora. Em contextos mais íntimos pode alongar-se.

[JERÓNIMO, Rui Moura. “Charolas, a invenção da tradição”, in Cidade e Mundos Rurais: Tavira e as sociedades agrárias. Tavira: Câmara Municipal de Tavira, 2010, p. 121-124]

A melhor ilustração que encontrei (no Youtube) foi este vídeo (embora claramente amador, separa explicitamente as várias partes referidas no texto):


[Resumo da actuação da Charola da Casa do Povo de Conceição de Faro,
no Dia de Ano Novo, de 2010, no 28º. Festival de Charolas de Conceição de Faro].

Este Canto Velho também poderá fazer as delícias de alguns leitores:


[O Canto Velho é o canto mais tradicional da Charola e é repetido todos os anos.
Aqui é cantado pelo principiador João Faustino. A música e os versos são de autores desconhecidos
].

Um Comentário »

  • ABEL BEIRÃO diz:

    Conforme avançava na leitura desta magnífica descrição, pensava para comigo que nem eu próprio ( que fui um ” Charoleiro militante ” desde os 12 anos, entre 1970 e 2007 ) diria melhor. Quando pousei o olhar no nome do autor deste texto, entendi a causa de tão perfeita explicação. Só alguém com o conhecimento musical, com a sensibilidade popular, com o gosto pela pesquisa e com a fidelidade à tradição é que poderia transmitir aos leitores, na perfeição, o que são as Charolas. E o meu caríssimo Amigo Rui Jorge tem, na sua alma artística, todos estes predicados que, atrás, referi.

    Apenas a justificação para a designação ” Charolas ” poderá, eventualmente, não estar correcta. E isto porque há quem apresente outras razões que poderão, ou não, ser mais verdadeiras.

    Mas o essencial, está exemplarmente bem descrito. Assim sendo só me resta agradecer ao Rui Jorge o grandioso contributo que continua a dar em favor da música popular, principalmente a tradicional algarvia e, neste caso, particularmente às ” CHAROLAS “.

    Bem – hajas.

    FELIZ 2013.

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