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As ideias de Rousseau

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Rousseau nasceu a 28 de Junho de 1712. Comemoramos o aniversário publicando a tradução de parte de um dossiê incluído no nº 12 da revista Filosofía Hoy — a síntese de algumas das suas ideias.

O contrato social

O estado original de natureza serve ao ser humano como ideal o como recordação, mas para o desenvolvimento da sua vida e o desempenho das suas funções é necessária a organização da sociedade numa comunidade política. Que papel desempenha nela a liberdade? Para responder a essa questão, Rousseau — após examinar e rejeitar as propostas de Hobbes e Locke — elabora a sua teoria de O contrato social. Segundo esta, o homem passa de um estado de natureza a um estado fundado na razão no pleno e consciente exercício da sua liberdade. Livremente  o ser humano escolhe submeter-se à lei, mas a uma lei a que ele próprio se impõe livre e racionalmente. O contrato socialde Rousseau resolve o problema de encontrar “uma forma de associação (…) pela qual cada um, unindo-se a todos, não obedeça, no entanto, senão a ele próprio e permaneça deste modo livre como antes”.

Deus e religião

Católico num primeiro momento, protestante depois, Rousseau estava plenamente convencido da existência de Deus, mas as formas religiosas não combinavam bem com ele, de modo que se adaptava à que mais lhe convinha. Esta era uma típica acusação que lhe faziam tanto amigos como adversários — tantas vezes os mesmos –, os quais exibiam o seu ateísmo com orgulho e zombavam das crenças de Rousseau. Ele sempre entendeu a realidade como um sistema, um todo em que se apreende “a íntima correspondência pela qual os seres que o compõem prestam ajuda mútua”. Neste contexto, Rousseau declara: “Creio que uma vontade move o universo e anima a natureza” e o faz, além disso, segundo certas leis. Em Emílio, Rousseau publica o seu credo: “A este ser que quer e que pode, a este ser ativo por si mesmo, a este ser, enfim, qualquer que seja, que move o universo e ordena as coisas, chamo-o Deus. Uno a este nome as ideias reunidas de inteligência, de poder, de vontade e da bondade que é sua consequência necessária; apesar disto não conheço melhor o Ser que assim classifico; ele se furta, tanto aos meus sentidos como ao meu entendimento; quanto mais penso nele, mais me confundo; sei com toda a certeza que ele existe, e que existe por si mesmo”. A religião que Rousseau professa segundo esta ideia de Deus é uma religião natural fundada na natureza humana e na experiência da ordem do mundo e das coisas que existem como manifestações de Deus.

Emílio ou Da educação

Talvez porque a ele não lhe restou outro remédio que ser autodidata, Rousseau prestou muita atenção, durante toda a vida, à educação e à infância. Se não o fez no plano mais prático e real — entregou, com a sua companheira, os seus cinco filhos ao orfanato –, fê-lo teoricamente (o que não deixa de ser um tanto contraditório; mas o que não o foi na vida deste pensador?). Verteu todas as suas opiniões em Emílio ou Da educação, que vê a luz em 1762 com o orgulho do seu autor, qque a considera a sua melhor obra. Nela, propõe um modelo educativo em que o homem conserve boa parte da sua bondade original, um modelo que minimize o contexto social alienante e garanta a sobrevivência dos valores naturais. “Viver é o ofício que lhe quero ensinar”, afirma o precetor ao seu aluno imaginário. “Ao sair das minhas mãos (…) será antes de mais um homem”. Rousseau abarca no seu livro os 20 primeiros anos de vida do homem. Está dividido em cinco partes: Na primeira, até aos dois anos, Rousseau fala da importância de escolher a ama-de-leite adequada, de fortalecer o corpo mediante métodos como os banhos com água fria, de não dar importância excessiva ao choro… Na segunda, centra-se no valor pedagógico do jogo, distanciando-se dos rigorosos sistemas habituais. Mais do que de aprender, tratar-se-ia de não cair em erros. No terceiro capítulo faz finca-pé na importância do aperfeiçoamento físico e de aprender um ofício manual. No quarto, uma vez educado o corpo, trata-se de educar os sentimentos. É o momento de tratar temas como o amor e a religião, em relação à qual defende uma posição muito peculiar que lhe causará não poucos problemas. Na controversa Profissão de Fé do Vigário Saboiano, que inclui neste ponto, aposta numa religião natural e arremete contra os cultos estabelecidos, o que levará à proibição da obra. A última parte destina-se à educação das mulheres. Rousseau defende a subordinação desta ao homem, e afirma: “Toda a educação das mulheres deve ser relativa aos homens”. Noções como a liberdade ou o poder do jogo influenciaram a pedagogia moderna, em métodos como o Montessori; no entanto, o autor insistiu em que a sua obra, uma experiência que não deixava de ser uma viagem imaginária, não era um manual de educação, mas antes “uma obra bastante filosófica sobre o princípio (…) de que o homem é naturalmente bom“, a descoberta que inspira toda a obra de Rousseau.

O homem é bom

E é-o pela sua natureza. Na origem  desta, reside um ser moral que nos leva a amar o que é bom e a odiar o que é mau na nossa relação com os semelhantes e connosco próprios. Mas, se bem que “tudo está bem quando sai das mãos do autor das coisas, tudo degenera nas mãos dos homens”, afirma Rousseau no Emílio. Com as suas palavras, o filósofo dá um novo impulso à teoria do bom selvagem que defende a virtude, a amabilidade e a confiança dos homens no chamado estado original de natureza. Desde então até aos nossos dias, o homem — cujo ideal é a liberdade e a justiça em harmonia  com a ordem universal — sofreu uma perversão ou distorção do que lhe é próprio, do seu ser, que o tornou praticamente irreconhecível sendo um problema distinguir as qualidades originais das artificiais.

O mal, a Providência

Numa sociedade e um tempo dispostos para o debate filosófico, um fenómeno natural como o terramoto de Lisboa e o seu número de mortes deram motivo para uma reflexão coletiva sobre o problema do mal. A posição de Rousseau foi determinada pela sua crença em Deus e na bondade inata do homem. Assim, o mal natural justifica-se pela limitação da ordem total da natureza, enquanto que o mal moral é obra do homem e de um uso erróneo da sua liberdade. A origem do mal, não devemos procurá-la em Deus, nem na Providência, mas antes no homem. No Emílio, Rousseau afirma-lo claramente: “É o abuso das nossas faculdades o que nos torna infelizes e maus. Os nossos desgostos, preocupações e penas vêm-nos de nós. O mal moral é, de modo irrefutável, obra nossa, e o mal físico não seria nada, se não existissem os nossos vícios que o tornam sensível. (…) Homem, não procures o autor do mal; esse autor és tu próprio. Só existe o mal que praticas ou sofres, e tanto um como outro vêm de ti”.

A vontade geral

O termo aparece na sua obra O contrato social e pode definir-se como o princípio que deve reger a comunidade resultante desse pacto. Não se trata da soma cumulativa de todos os interesses dos membros da comunidade, mas antes do que estes partilham, o que é comum a todos esses interesses e que tem como objetivo o bem de todos os membros da sociedade. A vontade geral não é algo posterior à formação da comunidade, antes a precede; é um interesse prévio. Nasce por oposição à “vontade do rei” que tinha imperado no regime monárquico e pretende assentar as bases de uma democracia perfeita.

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