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Convite à utopia

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Invitación a la utopía

Numa recensão a Invitación a la utopía [Convite à utopia]

[uma enciclopédia, em 304 páginas,  do pensamento utópico — desde a Antiguidade grega às utopias revolucionárias da Modernidade, incluídas a feminista e a anti-globalização — do teólogo Juan José Tamayo (Madrid: Trotta)],

Juan G. Bedoya confronta o apocalipse do nosso tempo (o dos políticos, também ou particularmente) com a necessidade da poesia utópica. Segundo Juan Bedoya, Tamayo constrói o seu terceiro livro sobre a utopia (depois de Religión, razón y esperanza. El pensamiento de Ernst Bloch (1992) e Para comprender la escatología cristiana (2008)) sobre as seguintes premissas:

Platão pedia que se amarrassem os filósofos com correntes para os forçar a interessarem-se pelo Estado. Mais teoria antes de chegar à ação. Seria bom que os intelectuais modernos pensassem sobre como mudar o mundo, e não tanto em preocupar-se com como conservá-lo. Mais esperança e menos apocalipse. Não acabou o tempo da poesia.

Apesar do diagnóstico de Adorno, nem Auschwitz nem as catástrofes que produzem essas coisas tão ingenuamente chamadas de “crise” libertam o intelectual (ainda menos o político) de procurar outras maneiras de construir uma Humanidade verdadeiramente humana. Contra o Günter Anders de A obsolescência do homem,  ofuscado contra o esperançado Ernst Bloch, levantam-se as ânsias do homem que apenas sabe duas coisas quando entra no uso da sua razão: que há de morrer e que tem que lutar por formas melhores de viver.

Utopias? Sim, utopias. No reino da mentira, até a própria palavra goza de má saúde. Molesta a verdade, prosperam as simulações. Arrebatam-se direitos às pessoas, até as matar de fome, mas o Poder diz atuar  para lhes melhorar a vida. Tácito já se aborrecia com tais eufemismos, com a anedota do comandante romano que acabou de forma brutal com uma tribo revoltosa e informou Roma, eufórico, de que o que ele tinha feito era levar a paz à região. “Criam a desolação e chamam-na de paz”, censurou Tácito. Sopram maus tempos para a verdade, mas também para a utopia. Qualificar uma pessoa de utópica é, muitas vezes, um insulto. A situação de desterro em que vivem os projetos utópicos é similar à dos poetas na República de Platão, expulsos da cidade ideal porque não alcançam a verdade. Face ao inconformismo do Maio francês (Sejamos realistas, peçamos o impossível!), domina o resignado “sejamos realistas, atenhamo-nos aos factos.”

[El País Babelia, 02.02.2013]

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