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Estamos condenados à liberdade?

Enviado por em 16 de Novembro de 2011 – 11:40 |

Proponho um EXERCÍCIO, no âmbito da rubrica A ação humana do programa de Filosofia (10º ano – 2011/12) .

Se o não fez ainda, sugiro que leia Algumas ideias/actividades, uma página introdutória a esta rubrica.

Leia e analise o texto que se segue

(…) um barco transporta uma carga importante de um porto para outro. A meio do trajeto, surpreende-o uma tempestade tremenda. Parece então que a única forma de salvar o barco e a tripulação é lançar borda fora a carga, que embora importante pesa muito. Ao capitão do navio coloca-se o seguinte problema: “Devo deitar fora a mercadoria ou arriscar-me a enfrentar o temporal conservando-a a bordo, esperando que o tempo melhore ou que a embarcação resista?” A partir daqui, se lança a carga ao mar, fá-lo-á porque prefere fazer isso a desafiar o perigo, mas seria injusto dizermos sem mais que a quer lançar ao mar. O que ele deveras quer é chegar ao seu destino, com o navio, a tripulação e a mercadoria; é isso o que mais lhe convém. Contudo, dadas as circunstâncias tormentosas, prefere salvar a sua vida e a da tripulação a salvar a carga, por mais preciosa que seja. Oxalá não tivesse rebentado a maldita borrasca! Mas a borrasca é algo que ele não pode escolher, é uma coisa que lhe foi imposta, uma coisa que lhe aconteceu, queira ele ou não; o que em contrapartida pode escolher é o comportamento a seguir no perigo que o ameaça. Se lança a carga borda fora, fá-lo-á porque o quer… e ao mesmo tempo sem o querer. Quer viver, salvar-se e salvar os homens que dependem dele, salvar o seu barco; mas não quer ficar sem a carga nem sem o ganho que ela representa, pelo que só muito a contragosto se separará dela. Preferiria sem dúvida não se ver no passo de ter que escolher entre a perda dos bens e a perda da sua vida. Todavia, não pode evitá-lo e tem de decidir-se: escolherá o que quiser mais, o que julga mais conveniente. Poderíamos dizer que é livre porque não pode evitar sê-lo, livre de escolher em circunstâncias que não escolheu sofrer.

(Fernando SAVATER. Ética para um jovem. 3ª ed. Lisboa: Editorial Presença, 1995, pp. 29-30)

I. Justifique se considera verdadeira/falsa cada uma das afirmações seguintes:

  1. Fernando Savater defende que o Homem é livre, porque pode agir sem quaisquer condicionalismos.
  2. O autor do texto defende o determinismo.
  3. O autor do texto defende que o Homem está obrigado a ser livre, porque tem de escolher, apesar de não poder escolher tudo.

II. Concorda com a tese do autor? Argumente a favor da sua posição.

 

[linhas de uma “RESOLUÇÃO” possível]

I.

  1. F. As nossas opções estão (sempre?) dependentes de fatores/condicionalismos que a nossa vontade não controla; no caso, “a tempestade é algo que ele [o capitão] não pode escolher”
    [aproveitar para rever o tema condicionantes da ação humana -- ponto 2 da unidade A ação humana].
  2. F. Os deterministas defendem que nada acontece por acaso (que não há efeito sem causa — e que as mesmas causas produzem os mesmos efeitos), tanto na Natureza como (segundo o determinismo absoluto) no agir humano. Se assim for, os nossos atos são predeterminados. Ora, segundo Savater, apesar de e para lá dos condicionalismos referidos no número anterior, resta-nos um espaço de escolha – no caso, “o comportamento a seguir no perigo que o ameaça”.
    [Num outro livro -- As perguntas da vida (dados bibliográficos aqui) -- Savater considera 3 significados de liberdade:

»»» a liberdade como disponibilidade para agir de acordo com os nossos próprios desejos ou projetos (as situações em que não temos impedimentos físicos, psicológicos ou legais para agir): é livre quem não está preso, não é submetido a torturas ou drogas, etc.;
»»» a liberdade de querer o que quero e não só de fazer ou tentar fazer o que quero: posso estar atado ou preso, mas não posso ser impedido de querer fazer uma viagem ou de odiar o torturador;
»»» a liberdade de querer o que não queremos e de não querer o que de facto queremos: gostaríamos de ter intenções que não temos e de não ter intenções que temos (de fumar, por exemplo, no caso de alguns fumadores). No texto deste exercício, o capitão, se lançar a carga ao mar, fá-lo porque o quer... sem que ao mesmo tempo o queira].

  1. V. O Homem “é livre porque não pode evitar sê-lo”; sobretudo quando circunstâncias determinadas nos colocam perante opções que podem ser vitais (no caso, naufragar/morrer). É então que o Homem tem de decidir o que lhe é preferível — “a perda dos bens” ou “a perda da sua vida”, por ex.; é também em circunstâncias deste género que o Homem pode ser valente — quando corre riscos porque quer e não porque tem de correr; no capítulo 1 de Ética para um jovem, Savater compara o caso do guerreiro troiano Heitor (que enfrenta o inimigo atacante Aquiles, mesmo sabendo que, por ser este mais forte, provavelmente o matará — e o faz porque quer) com o das térmitas-soldado, as formigas-brancas que em África lutam e morrem para salvar as restantes — porque estão programadas para o fazer, porque não sabem comportar-se de outro modo. Apenas censuramos ou aplaudimos os seres que, ainda que “programados” para atuar de determinado modo (pela educação, por fatores biológicos…), têm sempre a possibilidade de escolher vários caminhos, de atuar de modos diferentes.[Proponho uma hipótese de investigação: Sartre também defende que o Homem está condenado a ser livre. Encontre os argumentos no livrinho O Existencialismo é um humanismo daquele filósofo francês]

II.

[Trata-se aqui de assumir uma posição no confronto determinismo/liberdade -- e argumentá-la. Encontra argumentos na página, já sugerida, Algumas ideias/atividades].
.

[sobre esta rubrica pode ler ainda as OBSERVAÇÕES DO PROGRAMA]

[Faça este Teste sobre a unidade "A ação humana" [*]]

[*] …a acrescentar, brevemente. Mantenha-se informado/a sobre as novidades d’O meu baú: receba-as na sua caixa de correio (basta assiná-las na barra lateral direita desta página).

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