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Filosofia, ciência e tecnologia

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Filosofia, ciência e tecnologia

A 25 de novembro de 1915, Albert Einstein apresentou à Academia Prussiana das Ciências as equações definitivas da relatividade geral, uma teoria que mudaria para sempre a maneira de entender o espaço e o tempo. A revista Investigación y ciencia dedica o seu número de novembro de 2015 ao centenário (ao passado e ao presente) “de uma das criações científicas mais belas e influentes de todos os tempos”. Retirei alguns textos que de algum modo tratam o tema da relação entre filosofia, ciência e tecnologia:

  • A estranha relação entre filosofia e tecnologia, de Ana Cuevas, salienta que, apesar de a filosofia desde a antiguidade ter tomado como objeto de reflexão os mais diversos fenómenos (a natureza, o conhecimento, a arte, a moral, a política, Deus, a educação, o amor e a guerra), a técnica apenas mereceu atenção nos tempos recentes. As causas desse “esquecimento”, acrescenta, talvez tenham muito que ver com um certo preconceito em relação ao trabalho manual. Mas a autora, mais do que de saber dessas causas, trata de salientar as consequências da juventude da filosofia da tecnologia e, sobretudo, de fazer um esboço dos problemas que se estão abordando na reflexão filosófica sobre este assunto. Problemas ontológicos (por exemplo, o que é que faz com que um objeto possa ser considerado um artefacto técnico?), epistemológicos (o conhecimento que se requer para o desenvolvimento da tecnologia é peculiar ou diferente de outras formas de conhecimento?), morais (por exemplo, quais são as repercussões das novas tecnologias sobre a vida presente e futura dos humanos — nós próprios e o meio ambiente…?)… Em conclusão: “A reflexão filosófica sobre a tecnologia tem que servir para nos orientarmos num mundo cada vez mais tecnologicamente complexo”.
  • Em As experiências mentais de Einstein, Sabine Hossenfelder pergunta-se pela importância que tem tido a imaginação para o avanço da física. Tanto no caso da relatividade especial como no da geral, “Einstein elaborou novas teorias sobre a natureza valendo-se da imaginação para ultrapassar as limitações do laboratório”, tendo isso sido decisivo para transformar a experiência mental em “uma peça básica da física teórica moderna. Atualmente, os teóricos usam as experiências mentais de modo habitual, tanto para elaborar novas teorias como para localizar inconsistências ou
    efeitos não esperados nas já existentes”. Mas esta aceitação das experiências mentais levanta questões incómodas: por exemplo, pode o pensamento por si só sustentar ideias que carecem do apoio observacional das experiências reais? até que ponto podemos confiar na dedução lógica? E a autora analisa algumas das experiências mentais mais emblemáticas de Einstein.
  • Ciência e filosofia, um diálogo de surdos? (com o subtítulo O tempo de Einstein e o Tempo de Bergson) é uma recensão de Lino Camprubí, do Instituto Max Planck para a História das Ciências de Berlim, ao livro The Physicist and the Philosopher: Einstein, Bergson and the debate that changed our understanding of time (Jimena Canales. Princeton University Press, Princeton, 2015). “Em 1921 Einstein obteve o Nobel pelo seu artigo de 1905 sobre o efeito fotoelétrico, mas não pelas teorias da relatividade especial e geral. O presidente do júri sueco atribui explicitamente tal decisão às dúvidas levantadas pelo filósofo francês Henri Bergson sobre a cientificidade das conclusões que Einstein extraía acerca do tempo. Para Bergson, a decisão do júri supunha a aceitação pública pelos manda-chuvas da física de que a filosofia tinha um terreno próprio que a física não podia ocupar. Um grande êxito, tendo em conta que a instituição não considera premiável a filosofia (em 1928 o próprio Bergson obteve o Nobel… de literatura)”. No entanto, Bergson teve uma vitória pírrica que “contribuiu para o seu próprio descrédito e progressivo esquecimento na proporção inversa àquela a que cresciam a fama e o prestígio de Einstein. Paralelamente, o prestígio da ciência eclipsou nestes últimos cem anos o da filosofia académica iniciada por Platão”.
    Com referências ao livro de Jimena Canales, Lino Camprubí analisa depois as objeções de Bergson e o significado que elas podem ter nos nossos dias, acentuando as diferenças das ideias filosófica e física de Tempo. “Desde então, o debate sobre as relações entre a ciência e a filosofia repete-se periodicamente. A filosofia parece destinada ou a glosar e divulgar novos resultados científicos ou a perder-se em especulações metafísicas de costas para a ciência. Há saída para este diálogo de surdos?” “Ao longo de mais de 400 páginas escritas com contundente clareza e elegância, Canales introduz-nos na teia do debate, os seus antecedentes e as suas consequências”.

Filosofia, ciência e tecnologia

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||| (Outro) pretexto para a publicação deste texto: o apoio ao programa de Filosofia do 11º ano, designadamente, à rubrica Temas/Problemas da cultura científico-tecnológica.

||| Deixo, a seguir, os textos completos.

Filosofia e tecnologia (Filosofía y tecnología) by António Gomes

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