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Hume, o grande cético

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David Hume[David Hume]

Neste texto [construído a partir de tradução livre de parte de um mini-dossiê, sobre Hume, da revista Filosofía Hoy, nº 21] serão apresentadas algumas noções e teses, sobre o conhecimento, daquele filósofo escocês.

CONHECIMENTO E IMPRESSÃO

Tudo o que um ser humano guarda na mente são perceções. “Todas as perceções da mente humana — explica Hume no Tratado da Natureza Humana — se dividem em duas espécies distintas, que chamarei impressões e ideias. A diferença entre essas consiste nos graus de força e vivacidade com que se imprimem na nossa mente“. Impressões [sensações, paixões e emoções] são as que aparecem à mente de modo preciso e vivaz; e ideias, as que aparecem de forma débil e evanescente. Novamente Hume: “Creio que não será necessário empregar muitas palavras na explicação dessa distinção. Qualquer um por si mesmo perceberá prontamente a diferença entre sentir e pensar. Os graus usuais de ambos são facilmente diferençados; embora não seja impossível que em casos particulares possam aproximar-se bastante. Assim, no sono, numa febre, na loucura ou em qualquer emoção violenta, as nossas ideias podem avizinhar-se das nossas impressões; tal como, por outro lado, acontece que as nossas impressões sejam tão fracas e subtis que não possamos distingui-las das nossas ideias. Mas, não obstante essa semelhança nuns poucos casos, elas são em geral tão diferentes que ninguém pode ter escrúpulos de elencá-las sob títulos diferentes e atribuir a cada uma um nome peculiar que marque a diferença.”

As impressões chegam-nos através dos sentidos; as ideias, através de representações mentais — e, portanto, derivam das impressões. A divisão entre perceções origina dois tipos de conhecimento: o conhecimento procedente das ideias e suas relações, e o de factos, baseado em impressões, isto é, na experiência. Para saber se uma ideia é verdadeira, basta comprovar se procede de uma impressão ou não.

 CAUSALIDADE

O método de remeter uma ideia para a sua impressão, para saber se é verdadeira ou não, levar-nos-á a concluir que apenas pode haver conhecimento de factos passados ou presentes, mas não de futuros. Uma ferramenta possível a que Hume lança mão para explicar o conhecimento de factos futuros — embora depois a lance por terra — é a inferência causal, uma relação causa-efeito dos acontecimentos dos quais se teve um prévio conhecimento. Por exemplo: o fogo queima e a água molha. Podemos arriscar dizer que esta relação se dá necessariamente — mas isso, na opinião de Hume, seria ir demasiado longe. Para ele, uma sucessão constante não tem que ser necessária. “Assim, não apenas a nossa razão nos falha na descoberta da conexão última de causas e efeitos, mas também, mesmo após a experiência nos ter informado da sua conjunção constante, é impossível satisfazer-nos, pela razão, por que devamos estender essa experiência para além dos casos particulares que caíram sob a nossa observação”.

[pode ler aqui um texto sobre este assunto: a causalidade segundo Hume]

IDENTIDADE E MEMÓRIA

Para Hume, nem sequer a existência de nós próprios se pode justificar recorrendo à intuição de nós próprios, já que apenas intuímos ideias e impressões e estas não são permanentes, antes mudam constantemente. No seu Tratado da Natureza Humana afirmará: “Se houvesse alguma impressão que desse origem à ideia do eu, essa impressão deveria permanecer invariável em todo o curso da nossa existência, uma vez que se supõe que o eu existe dessa maneira. Contudo, não há impressões constantes e invariáveis. Dor e prazer, tristeza e alegria, paixões e sensações sucedem-se umas às outras e nunca existem todas ao mesmo tempo. Não podemos, portanto, derivar de nenhuma delas a ideia do eu. Por conseguinte, tal ideia não existe”.

[Pode ler mais sobre este assunto, em O Problema do eu em David Hume]

O facto de Hume pôr em dúvida a própria identidade do indivíduo colocou-o em apuros, na hora de explicar a ideia ou consciência de si próprios que os seres humanos possuem. Para oferecer uma explicação, recorreu à memória, pois graças a ela temos a perceção das relações que existem nas diversas impressões. “Quando uma determinada impressão esteve presente uma vez na mente, ela reaparece aí sob a forma de uma ideia, o que se pode dar de duas maneiras diferentes: ou ela retém, em sua nova aparição, um grau considerável de sua vividez original, constituindo-se em uma espécie de intermediário entre uma impressão e uma ideia; ou perde inteiramente aquela vividez, tornando-se completamente uma ideia. À faculdade pela qual reproduzimos as nossas impressões da primeira maneira chamamos memória, e à outra, imaginação”.

Encontra aqui um índice dos textos sobre Hume publicados n’O meu baú.

Este texto pode ser útil aos estudantes de filosofia do 11º ano (ano letivo 2012/13), designadamente para a rubrica Descrição e interpretação da actividade cognoscitiva.

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