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“Livro” de Caetano Veloso

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Houve um tempo em que o jornal Público teve um suplemento, creio que semanal, a que chamava Sons, dedicado (como o nome deixa adivinhar) à crítica e divulgação musical. O suplemento de 24/12/1988 elegeu, como o melhor disco desse ano de 1998, “Livro” de Caetano Veloso, onde (segundo crítica de Nuno Pacheco) Caetano Veloso conseguiu sublimar a essência pura da sua obra, fazendo dele uma obra-prima da atual música brasileira.

"Livro" de Caetano Veloso

Reproduzo o texto total de Nuno Pacheco:

Passados trinta e quatro álbuns, muitos deles brilhantes de sabedoria e gosto, Caetano Veloso conseguiu sublimar em “Livro” a essência pura da sua obra, fazendo dele uma obra-prima da atual música bra­sileira.

Do apuro posto na fusão de sonoridades moldadas de múltiplas vizi­nhanças (o samba, os batuques afro da Bahia, a bossa nova e a tropicália, o fado e o rock, o jazz e o funk) até à mestria dos arranjos ins­trumentais e vocais, partilhados por Caetano e Jaques Morelenbaum, há na matriz deste disco duas marcas omnipresentes: o samba, na sua vertente original baiana; e percussões recriadas a partir das batuca­das afro-baianas do início do século (tambores, timbaus, surdos, pra­tos, palmas).

São 54 minutos de génio. Desde logo, no arranque: o samba “Os pas­sistas”, onde simples acordes de viola introduzem voz e tambores num balanço irresistível; “Livros”, na linha de “Estrangeiro” (1989), onde a voz paira sobre um fundo de tambores e efeitos elétricos pontuados por trompas e clarinetes; e “Onde o Rio é mais baiano”, um samba-axé onde Caetano lembra que foi a Bahia que exportou o samba para o Rio de Janeiro.

A seguir a “Manhatã”, um tema dedicado ao rockeiro carioca Lulu Santos, há temas onde as palavras são puro pretexto para extraordi­nárias explorações rítmicas, como “Doideca” (com o velho “London London” de permeio) ou “How beautiful could a being be”, uma única frase repetida vezes sem conta num ambiente sonoro deliciosamente africano. Há ainda auto-citações, como “Você é minha”, cuja frase-chave é melodicamente decalcada de “Você é linda” (1983), ou ho­menagens assumidas, como “Um Tom” (singelo tributo a Jobim), “Na baixa do sapateiro” (recriação monumental do clássico de Ary Barro­so) ou “Pra Ninguém” (onde João Gilberto ressalta no meio de abun­dantes referências a figuras da música popular brasileira).

No meio de tudo isto, dois temas mergulham na história: ‘0 navio negreiro”, excerto de um original de António de Castro Alves, recita­do por Caetano Veloso sobre um fundo de tambores ritmados, sobre o sofrimento dos escravos e com a participação de Maria Bethânia e Carlinhos Brown; e “Alexandre”, onde Caetano, com uma inflexão de voz rara em tons dançantes, “tropicaliza” olimpicamente a história de Alexandre Magno. No mesmo tom, surge o despreocupado “Não enche”, que antecede um daqueles temas que só Caetano poderia ter composto: ‘Minha voz, minha vida”, um samba na linha de “Desde que o samba é samba”, de “Tropicália 2”, com a marca de um mestre (João Gilberto) aliada à inspiração daquele que, hoje como ontem, mostra ser o seu maior e mais fecundo discípulo.

"Livro" de Caetano Veloso

Ainda sobre “Livro” de Caetano Veloso…

||| Caetano Veloso escreveu comentou este disco.

||| A rádio (online) Clássica Mente dedicou-lhe uma emissão. Gravada em “podcast”, pode ser ouvida aqui.

||| Para abrir o apetite, deixo duas faixas: Onde o Rio é mais baiano e How Beautiful Could A Being Be:

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