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Música sacra: o que a torna sacra? a letra? a própria música?

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Pacificamente, digo eu, música sacra é este belíssimo Agnus Dei de Mozart, da sua Missa da Coroação, que não me canso de ouvir:

E não me canso também de fazer a mesma pergunta: o que é que faz com que “isto” seja música sacra?

Já noutro texto deste sítio, em tempos, coloquei essa pergunta, a pretexto da proposta de audição de uma obra de Michel Corrette (1709-1795), um compositor francês contemporâneo de Vivaldi: o seu Motetto Laudate dominum de coelis foi composto a partir de A Primavera, um dos quatro concertos de As Quatro Estações de Vivaldi. Concluía mais ou menos assim o texto: a primeira obra é música sacra, enquanto que a de Vivaldi é profana. No entanto, a música, digamos, é “a mesma”. Isto levanta esta questão: o que é que torna sacra a música?

Música sacra: "Missa da Coroação" de Mozart

É apenas a letra que torna sacra a música sacra?

Desnovelando a pergunta:

se o texto Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo, tende piedade de nós fosse substituído por um qualquer poema (por exemplo, de amor, profano), esta peça musical deixaria de ser sacra?

Se a resposta for afirmativa, então não é a música que é sacra — é o texto

…e as interrogações multiplicam-se. Lembro-me de uma entrevista a McFerrin, a propósito da “versão jazz” do Magnificat de Bach, em que o cantor confessava que não sabia latim e, portanto, a letra tinha para ele o mesmo significado de lá-lá-lá ou coisa do género: a obra deixou de ser música sacra, naquela interpretação? Temos aqui um Magnificat… profano?

Por outro lado, se não for (só) o texto a definir o caráter sagrado e esse caráter estiver ou também estiver na música, que características é que fazem com que ela seja música sacra? Dito de outro modo:

haverá algo nela que faça com que continue a ser claramente música sacra, mesmo trocando-lhe o texto para qualquer outro (até o mais profano que seja possível imaginar)?

João Delgado e a música sacra

A solução?

Apresentei estas interrogações numa rede social. Na troca de ideias que se seguiu, um amigo (e conceituado músico intérprete, como aqui se prova) respondeu de uma forma que, apesar de muito breve, desfez muitas das minhas dúvidas. Trata-se de três ideias expostas em texto corrido, que eu aqui separo:

  • só o texto é sacro;
  • mas, claro, a música baseou-se nas ideias do texto sacro…
  • …(que são, habitualmente, bem humanas, claro).

E acrescentou:

Do que eu gosto mais nos grandes compositores de música sacra é precisamente a forma como eles extraem as coisas mais profundamente humanas dos textos, e as transformam em música.

*****

||| Já propus a audição do Agnus Dei num texto sobre a arte/música abstrata.

||| Se não conhece a referida peça de Michel Corrette, aconselho-o a ouvir. Encontra-a no tal texto (Corrette / Vivaldi: música religiosa / profana).

||| …e/ou a Música da Coroação, inteirinha (com Herbert von Karajan dirigindo a Orquestra Filarmónica de Viena, numa execução integrada em celebração católica na Basílica de São Pedro):

||| Dois trechos da “versão jazz” do Magnificat: no Canal Youtube d’O meu baú:

Deposuit

Quia respexit

 

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