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Neobarroco pós-moderno: a arte no nosso tempo

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Vivemos uma época artística que a história conhecerá como “Neobarroco Pós-moderno“. Um título que, tristemente, lhe assenta como uma luva.

Certamente já alguma vez entrou num museu de arte contemporânea e teve a sensação de ouvir sinos sem saber onde. É exatamente a isto que me refiro.

Neobarroco pós-moderno

[foto por Flavio~ (licencia CC)]

Neobarroco pós-moderno

O museu deixou de ser uma entidade possuidora de obras de arte, para ser uma entidade legitimadora de obras de arte. O que é que isto significa? Que qualquer objeto que passe as portas de um museu, e vá acompanhado de uma plaquita com título e autor, automaticamente é arte.

Quer dizer, um caixote de lixo na rua é um caixote de lixo. Mas, se estiver dentro de um museu e houver uma placa onde se leia “Lixeira com placa – António Gomes”… isto é arte neobarroca? Quase. Isto pode interpretar-se como a “Merda de Artista” de Manzoni.

A verdadeira arte arte neobarroca inclui uma descrição, o mais grandiloquente possível, que inclua palavras como “subversivo”, “relação”, “pregas”, “passagem do tempo”, etecetera. Quando menos disser no maior espaço de texto, maior é o potencial artístico da obra.

Então, o que fazem os artistas?

Os artistas justificam este movimento alegando que o que se “vende” é a ideia, e não a obra em si, que acaba por seer um “resto” da mesma. Em suma, que, tendo um texto ao lado, vale tudo.

Como ideia de “a passagem do tempo”, pode valer um carro destroçado, uma lata oxidada, ou simplesmente deixar a sala vazia, como o ponto culminante do êxtase artístico e a vagância.

Dizem igualmente que este movimento é por e para artistas. E que se o não entende, a culpa é sua, enquanto público. Algo como a versão intelectualoide do “quem é burro que estude”.

Como exemplo, seja Richard Prince. A sua maior obra é vender capturas de ecrã do Instagram de outros artistas, por somas ridiculamente altas. Não estou a brincar.

 Damien Hirst

[foto por dou_ble_you (licencia CC)]

Quer outro exemplo? Pesquise por Damien Hirst (mais de 100 milhões de libras inglesas por um cadáver de tubarão conservado em formol. O título da obra é “A impossibilidade física da morte na mente de alguém vivo”.

E o que é que acontece com a fotografia?

Agora, precisamente agora, a fotografia começa a explorar as correntes artísticas contemporâneas. E mergulhou no neobarroquismo, criando imagens muito “sugestivas”. Esta palavra está semeada pelas descrições de uns 90% da fotografia contemporânea.

Como são estas fotografias sugestivas? De um modo geral, em escala de cinzentos, tremidas, desfocadas, e com ruído. Uma combinação de pelo menos duas destas características.

Mas há uma característica imprescindível, se quiser ser um fotógrafo contemporâneo de galeria: tem que imprimir grande, muito grande. Exagerada e aumentadamente grande. Muito barroco tudo.

Quer isto dizer, em termos puramente práticos, que as obras são caras de produzir, puramente pelo seu tamanho. Se for pobre, tenha o talento que tiver, não pode ser artista. A menos que receba um subsídio de dinheiros públicos pelo caráter sugestivo da sua obra. Dinheiro que sai dos bolsos da gente comum, precisamente aquele que é recusada e tratada de ignorante nos seus discursos de artista incompreendido.

[Excertos, traduzidos, do texto La Fotografía Como Arte. Una Opinión Controvertida, publicado no blogue de fotografia dzoom. O texto tem uma breve introdução sobre as funções da arte ao longo da história]

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Este texto…

||| …pode ter interesse para o estudo do tema A dimensão estética – Análise e compreensão da experiência estética, do programa de Filosofia do 10º ano]

||| … é, expressamente, um artigo de opinião. Q

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