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O juiz implacável

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Paradoja

Proponho um desafio lógico, traduzido de 101 problemas de filosofía, de Martin Cohen [Madrid: Alianza Editorial, 2003, p. 21-22]:

Tinha passado muita gente desagradável na presença do juiz Tremeliques, mas aquele que se fazia chamar “o Filósofo”, embora sem nunca ter estudado tal disciplina, tinha-o exasperado de modo especial. Tremeliques disse-lhe:

— Réu, vou tentar mostrar-lhe o valor da honradez. Provou-se a sua culpa enquanto ladrão e trapaceiro e de mentir a este tribunal reiterada e sistematicamente para salvar a sua condenada pele. Bem, meu amiguinho, agora vai cair sobre si o peso da justiça. A pena que lhe aplica este tribunal é… (e, fazendo uma pausa de suspense, o juiz enfia umas luvas e um pequeno chapéu preto) que seja conduzido daqui para o patíbulo e seja pendurado pelo pescoço até que morra.

«… MAS, como sou um juiz magnânimo, vou-lhe dar mais uma oportunidade de aprender o valor da verdade. Se, no dia da sua execução, assinar um documento no qual faça uma declaração verdadeira, a sentença será comutada por 10 anos de prisão. Se, no entanto, o documento for, na opinião do carrasco chefe, falso, a sentença será executada imediatamente. E advirto-o — acrescenta Tremeliques ao ver que as suas palavras não pareciam ter qualquer efeito sobre o sem-vergonha — de que o chefe das execuções é membro do Clube de Verdugos Positivistas Lógicos e que rejeitará como falso qualquer tolice metafísica; de modo que… deixe-se de truques! A partir deste momento, tem um dia para tomar a sua decisão!»

Estas palavras foram aplaudidas pelo júri, dada a severidade da sentença, e todos na sala dirigiram o olhar para o réu, com satisfação, ao ver a dura pena que tinha tocado ao vilão, unida à humilhação de ter que tornar pública uma afirmação verdadeira. O estranho foi que “o Filósofo” limitou-se a virar a cara, com um sorriso desafiador, enquanto era conduzido para o corredor da morte.

Chegou o dia da execução e o ladrão, contente que nem uma cotovia, assina uma declaração que entrega ao carrasco chefe, que a lê com crescente perplexidade. No seguimento, resmungando, este enrola a folha numa bola e ordena que libertem o filósofo e que não lhe seja aplicada qualquer pena.

O que terá escrito o réu no documento, para se salvar?

Este livro de Cohen já foi aqui utilizado para tratar o tema do génio maligno “de” Descartes.

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