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O nazismo e a arte

O tema dominante do número 173, de julho de 2013, da revista Descubrir el Arte é Apogeu e Queda dos Grandes Impérios — egípcio, carolíngio, bizantino, espanhol e Terceiro Reich –. Origem, progresso, mudança e destruição da arte nas potências históricas.

Das quatro páginas dedicadas à megalomania e destruição do Terceiro Reich (“Hitler, um pintor frustrado, impôs um regresso ao classicismo e qualificou as vanguardas como “arte degenerada” antes da sua eliminação”), transcrevo dois destaques: a figura do arquiteto Albert Speer e o roubo das obras de arte nos países conquistados.

germania-hitlerìs-capital[maquete de Germania, a cidade sonhada por Hitler e projetada por Speer.
Imagem copiada daqui]

Albert Speer

A arte nazi está representada por três figuras: um medíocre escultor, Arno Breker; uma cineasta notável mas sobrevalorizada, Leni Riefenstahl, e um arquiteto visionário mas não genial, Albert Speer, que foi o seu melhor expoente com a sua mistura de cubismo e classicismo a uma escala monumental. Entre as suas obras destaca-se o Campo Zeppelin, onde tiveram lugar alguns dos emblemáticos eventos de massas. Nele cabiam mais de 300 mil espectadores, com uma enorme tribuna vagamente inspirada no Altar de Pérgamo, que era iluminado com holofotes durante a noite, para lhe dar mais dramatismo e criar o que ele chamava de uma “Catedral de Luz”. A chancelaria do Reich foi a sua outra grande obra, um imenso edifício construído em apenas um ano, 1939, e cuja sala mais famosa, a Galeria de Mármore, de cor vermelha e 146 metros de comprimento, emulava e duplicava a Galeria dos Espelhos de Versalhes, embora sem atingir o seu refinamento artístico.

A coleção do roubo

A espoliação artística que sofreram as coleções dos países conquistados deve ser considerada como parte de um programa de pura intenção política, embora tenha sido o seu responsável, Herman Goering, um dos maiores ladrões de arte de todos os tempos e, tristemente, o maior colecionista de arte privada do seu tempo, quem mais dela beneficiou para fins pessoais. A pilhagem nazi foi de tal calibre que a sua sombra ainda turva as transações de hoje em dia no mundo da arte.

Indiretamente, o regime nazi é também responsável por inumeráveis perdas de obras de arte durante a guerra, como o incêndio da torre de Friedrichshain em Berlim em 1945, que servia de armazém de arte, e onde pereceram mais de quatrocentas pinturas de primeira ordem (uma lista com ilustrações destas obras foi digitalizada por The Clark Institute). A lendária exposição itinerante de 1937 de “arte degenerada” permitia comparar arte decadente pré-nazi com a arte do regime em duas exposições paralelas que tiveram enorme sucesso. Os inícios do nacional-socialismo coincidem com um período de regresso do classicismo em toda a Europa, o chamado “regresso à ordem”. Todos os aspetos do movimento possuirão uma forte componente estética, e não é por acaso que a secção de cultura dependia do ministério da propaganda de Coebbels.

Volta-se ao nu alegórico, como exaltação de uma feminilidade fundacional da família alemã, e, na sua variante clássica, como símbolo da força, da identidade racial e da superioridade em direta ligação com o mundo clássico não contaminado, como simboliza a obra do escultor favorito do Reich Arno Breker. Mas as obras culminantes do período serão os filmes de Leni Riefenstahl, Olimpia, que regista a celebração dos Jogos Olímpicos de Berlim em 1936, e O Triunfo da Vontade, um construção de impecável execução estética formulada em torno da reunião do partido nazi na cidade de Nuremberga em 1934.  Os desfiles militares, os estandartes, a solenidade quase ritual revelam uma dívida inegável às formas imperiais pagãs.

A arquitetura nazi sucumbiu em boa parte à destruição dos bombardeamentos alemães e à purga ideológica posterior, de modo que pouco dela sobrevive, com exceções interessantes, como o Ministério da Aviação ou o Estádio Olímpico de Berlim.

A robustez de formas e o sentido sistémico de elementos arquitetónicos está indissoluvelmente associado a uma função  propagandística plasmada visualmente. Ainda que nada seja comparável ao labor de Albert Speer (1905-1981), ministro de Hitler, arquiteto da sua magnífica chancelaria e desenhador do projeto da que seria a capital do Reich de mil anos mas não pôde ser, Germania, presidida por um gigantesco capitólio sobrevoado por uma cúpula de 250 metros de diâmetro. Metáfora da abóbada celestial para um Hitler que, olhando-se no espelho da Roma imperial mas aproximando-se da paródia de Charlot, sonhava com pôr o globo terráqueo a seus pés.

 

86_2017-Triunfo da Vontade[cena de O Triunfo da Vontade.
Imagem copiada daqui]

||| Uma “visão” de Germania:

||| O arquiteto Albert Speer

||| O filme Olympia

||| O Triunfo da Vontade

||| Se algum link for quebrado, por favor, avise-nos.

 

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