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A preguiça

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  1. Na Feira Nacional da Agricultura, a ministra da Agricultura, confrontada com as preocupações dos agricultores por estes estarem a ser penalizados pelos preços pagos pelos grandes distribuidores, apresentou a solução: “Temos que trabalhar! Temos que trabalhar para conseguirmos que a distribuição pague os preços que correspondem à própria produção”.

Esta parece ser a solução mágica mais invocada pelo poder, sobretudo quando não tem soluções. Seguindo a tese popular é do trabalho que vem tudo ou o trabalho tudo vence.

  1. Numa versão negativa da ideia anterior – a preguiça é um pecado mortal.

A maioria dos sete pecados mortais são, de facto, de morte… para as sociedades tradicionais, baseadas na agricultura. O trabalho rural era  penoso, porque da terra não vinha nada sem grande sacrifício; a agricultura era (mais do que atualmente, apesar de ainda ser) uma atividade frágil: os caprichos de uma tempestade podem destruir, em momentos, o que levou meses a cultivar. Por isso, tal como a preguiça (que, evitando o trabalho, fazia escassear a produção), era igualmente mortal tudo o que contrariasse a necessidade de poupar (dos momentos de boa produção para outros desfavoráveis): a gula ou a luxúria, por exemplo.

  1. Por isso, o trabalho se tornou uma atividade santificada, mesmo por, ou talvez por, ter sido amaldiçoada por Deus: sendo castigo pelo pecado, constituiu-se em instrumento de santificação.

Na luta contra a “santificação” do trabalho (pelos “padres, os economistas e os moralistas”) e pelo direito à preguiça, Paul Lafargue (genro de Karl Marx, um dos grandes denunciadores da alienação dos trabalhadores pelo trabalho, na sociedade capitalista, mas igualmente grande defensor do trabalho enquanto instrumento de construção humana) é autor de uma obra de referência: A organização do trabalho. O direito à preguiça. A religião do capital (1880). Segundo Lafargue, essa “estranha paixão” que é o amor ao trabalho e que “invade as classes operárias dos países em que reina a civilização capitalista” é a causa das “misérias individuais e sociais que […] torturam a triste Humanidade”, “a causa de toda a degeneração intelectual, de toda a deformação orgânica”. “Se, desalojando do seu coração o vício que a domina e envilece a sua natureza, a classe operária se levantasse na sua força terrível para reclamar, não já os direitos do homem, que são simplesmente os direitos da exploração capitalista, nem para reclamar o direito ao trabalho, que não é senão o direito à miséria – mas para forjar uma lei de ferro que proibisse a todo o homem trabalhar mais de três horas diárias, a terra, a velha terra, estremecendo de alegria, sentiria agitar-se no seu seio um novo mundo…”.

  1. Uma atividade só é trabalho na medida em que não valer por si próprio (e nisso se distingue do jogo). “Quem trabalharia gratuitamente? Quem não deseja o repouso, os lazeres, a liberdade? O trabalho, em si mesmo, não vale nada. É por isso que é pago. Não é um valor. Por isso é que tem um preço” (André Comte-Sponville. Dictionnaire philosophique. Paris: PUF, 2001, verbete Travail)

E o leitor… o que acha?

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