Início » 10º ano, Introdução à Filosofia

A definição de filosofia, um problema filosófico

Enviado por em 20 de Outubro de 2011 – 16:04 |

Há questões às quais a resposta não é conhecida daquele que as põe, mas que outros conhecem. Algumas, entre elas, provocam uma multiplicidade de respostas. Se uma delas é correcta, a solução consiste em encontrá-la. Ora, essa é uma escolha que não pode ser feita de olhos fechados: como saber que a resposta escolhida é exacta?

«O que é a filosofia?» é uma dessas questões e conhece-se uma quantidade incalculável de respostas. No entanto, nenhuma delas pode ser considerada categoricamente como certa ou errada. Porquê? Porque cada uma diz respeito a uma outra questão mais particular. Assim, a definição aristotélica de filosofia não é, no fundo, mais do que a definição da filosofia de Aristóteles. Mas esta (…) em que medida pode ser considerada como a expressão autêntica da filosofia universal, a qual, como se sabe, evolui na história? A rosa é uma planta, mas uma planta não é forçosamente uma rosa. Ora, a história da filosofia mostra que quase todos os filósofos estavam convencidos de que a sua doutrina exprimia, de maneira adequada, a essência invariável da filosofia.

Portanto, se nos encontramos face a respostas múltiplas, a solução não pode reduzir-se à escolha daquela que parece a mais válida. É preciso ainda estudar essa multiplicidade específica, o que ao fazê-lo nos levará a compreender que a questão «O que é a filosofia?», bem como as variadas respostas que ela provoca, nos obrigam a debruçarmo-nos sobre a realidade, infinitamente variada, que a filosofia procura apreender. (…).

Quando nos interrogamos o que é «a consciência», pensamos aparentemente no sentido deste termo. Mas, quando perguntamos «O que é?», a maior parte das vezes, apontam-nos um objecto e a resposta vem por si mesma; se, evidentemente, conhecermos o objecto.

Na verdade, «O que é?» pode ser uma questão de retórica, mas nesse caso exprime mais um estado emocional e quase não necessita de resposta. Em certos casos, «O que é?» respeita um fenómeno posto em evidência, mas ainda não estudado. Se ele se presta à observação, uma característica descritiva pode já servir de resposta. Se a observação é impossível, ou se não traz nada de substancial, a questão conserva-se em suspenso; faltam-nos os dados empíricos indispensáveis para dar uma resposta satisfatória.

A situação é totalmente diversa em filosofia. O sentido da pergunta «O que é a filosofia?» é solidário do sentido de todas as questões filosóficas, em geral, da situação que a filosofia conheceu durante milénios e, em certa medida, da sua situação presente.

Evidentemente, como todas as questões, pode ser apenas a expressão de um interesse medíocre, que se contenta geralmente com qualquer resposta, por mais imprecisa que seja. Por exemplo, o turista faz perguntas sobre uma construção que caiu incidentalmente sob o seu olhar; respondem-lhe, toma nota e parte à procura de outras coisas. É esta atitude de semi-indiferença que encontra a nossa pergunta, quando feita a um indivíduo culto, que se interessa pela filosofia, sobretudo porque se fala dela. Alguns espíritos, pouco preocupados de parecerem ignorantes, gostam de obter uma resposta concisa a todas as questões que surgem correntemente na conversa. Porém, quando um filósofo pergunta o que é a filosofia, não podemos duvidar que se interroga sobre o sentido do seu próprio ser intelectual, e pergunta mesmo se esse sentido existe. É por isso que a maneira como os filósofos fazem a pergunta é, em grande parte, a tomada de consciência da justificação necessária da filosofia, da sua razão de ser.

Portanto, existe a dúvida sobre a validade, se não da filosofia em geral, pelo menos da maior parte das suas correntes passadas e presentes. Devemos, sem dúvida, proceder então ao estudo da origem das diferenças de espécie entre filosofias. Está provado pelos factos que elas apareceram historicamente. Porém, talvez as diferenças sejam intemporais? Enquanto não nos demonstrarem o contrário, a nossa pergunta terá muitas vezes a mesma intensidade, mais ou menos como a de Pôncio Pilatos: «O que é a verdade?»

Não há dificuldade de maior em responder a perguntas como: «O que é a filosofia de Schelling?», «O que é a filosofia de Nietzsche?», «O que é a filosofia de Sartre?». Não que estas perguntas sejam simples, mas porque o seu conteúdo pode ser fixado com precisão. Porém, para dizer o que é a filosofia, será preciso, de repente, abstrair de tudo o que distingue a de Schelling da de Nietzsche e da de Sartre, assim como das de outros filósofos. Mas então, o que fica? (…).

Alguns espíritos cultos, a quem a filosofia parece um assunto demasiado sério (ou fatigante) para que lhe consagrem os seus tempos livres, mas insuficientemente sério para que lhe dediquem o seu tempo de trabalho, ficam impacientes ao pensar que muitas ideias, conceitos, evidências que nunca despertam dúvidas se tornam subitamente pouco claros, duvidosos e hesitantes, desde que se tornam objecto de exame filosófico de qualidade. Essas pessoas têm a impressão de terem sido enganadas, de terem sido espoliadas, de certa maneira, da sua anterior tranquila certeza. Ora, é preciso saber que para a história da filosofia, que viu os grandes pensadores, em lugar de passarem imediatamente à construção do andar seguinte do edifício, recomeçarem desde os alicerces, não há praticamente ideias, conceitos e evidências que não sejam susceptíveis de discussão. Todos os problemas considerados resolvidos (e, muitas vezes, efectivamente resolvidos) são permanentemente postos em discussão. Não é isso que explica que a nossa famosa pergunta figure no centro do debate filosófico, desde que ele existe?

Todas as grandes doutrinas filosóficas negam-se mutuamente; eis o facto empírico que serve de ponto de partida à história da filosofia. (…) Esta relação, aparentemente antagónica, entre as doutrinas fez sempre duvidar da unidade do saber filosófico. Se não há senão filosofias, a questão «O que é a filosofia?» não perde a sua razão de ser? A filosofia como ciência será possível? Eis novas interrogações, cujo alcance tem aumentado regularmente, ao mesmo tempo que se reforçam as divergências entre sistemas filosóficos. O facto de os sistemas filosóficos de um longínquo passado ressuscitarem, para evoluírem de maneira nova, dá uma acuidade ainda maior a estas questões, pois não vemos apenas afrontarem-se correntes filosóficas de uma dada época histórica, mas todas as filosofias que existem.

Concluímos, portanto, que a filosofia não conhece definição unívoca dos conceitos, compreendendo o conceito de filosofia. (…).

No caso das ciências exactas, a verdade impõe-se num espaço de tempo relativamente curto, aquele que é indispensável para compreender, verificar e contra-verificar as coisas novas. O processo histórico-filosófico não se presta a esta regra. Quem poderá dizer quanto tempo será necessário para que a verdade filosófica prevaleça sobre os erros?

(…).

Poder-se-á julgar que a incompatibilidade verificada entre a maior parte das grandes doutrinas filosóficas, a incompatibilidade das diversas interpretações do próprio conceito de filosofia, deveria tornar bastante difícil a separação entre o filósofo e o não filósofo. No entanto, filósofos pertencendo a correntes diametralmente opostas estão, normalmente, de acordo sobre esse ponto. Não poderá vir à ideia de ninguém cognominar Lamarck de filósofo, porque ele escreveu uma Filosofia Zoológica, ainda que esta obra suscite muitos problemas filosóficos. Os próprios não-profissionais, desde o momento que se interessem pelo assunto, estão, geralmente, em condições de distinguir o que é filosófico e o que não é. E até sabem distinguir, na leitura de uma obra não filosófica, romance ou poema, a sua mensagem filosófica, ao passo que o estudo de algumas obras pretensamente filosóficas os não satisfaz.

Vemos assim que será quase mais fácil distinguir o filosófico do não-filosófico do que, digamos, o químico do físico. Os elementos distintivos do raciocínio filosófico são quase sempre evidentes, porque uma definição negativa da filosofia (isto é, a definição do que não é filosófico) habitualmente não apresenta dificuldades. Mas nem por isso a especificidade da filosofia deixa de ser um problema. A nossa pergunta «O que é a filosofia?» deverá colocar-se entre as questões filosóficas fundamentais. Esta particularidade afirma-se inteiramente desde a Antiguidade grega, no dia em que Sócrates adoptou por lema filosófico a expressão do oráculo de Delfos: «Conhece-te a ti mesmo». Os Diálogos de Platão mostram bem que este problema significa sempre o debate do sentido da filosofia. (…)

Não vamos, sobretudo, imaginar que cada vez que o filósofo se interroga sobre o que é a filosofia, o conteúdo da questão se conserva inalterável e que a sua interrogação seja apenas motivada pela sua insatisfação perante as respostas que já tem. Efectivamente, a prévia realidade desta interrogação não é a vontade de chegar a uma definição perfeita, mas a nova problemática filosófica que contesta a antiga e que é importante e determinante para o conceito de filosofia.

Eis, portanto, um debate que não cessa de enriquecer o conteúdo da filosofia, de renovar a sua problemática à luz da história da humanidade. É isso que lhe conserva plena actualidade, no decurso dos séculos. Esta actualidade cresceu particularmente nos nossos dias, quando os homens dominaram as forças da natureza, o que, sendo um bem, acabou, em virtude do carácter antagónico das relações sociais, por pôr em perigo a própria existência da humanidade.

A luta ideológica que se desenrola na nossa época e que define muito a marcha da história não cessa de repor as questões já antigas, mas sempre novas, do sentido da vida humana e do sentido da história, da natureza do homem, das suas relações com o meio natural e com o seu semelhante, do livre arbítrio, da responsabilidade, do determinismo, do progresso, etc. (…)

Praticamente, são problemas filosóficos os levantados pela revolução científica e técnica, pelas suas espantosas realizações, pelas perspectivas que ela abre, as contradições que a acompanham, as suas consequências sociais. O irracionalismo filosófico contemporâneo vê de maneira pessimista as «monstruosidades» científicas e técnicas que se multiplicam nos nossos dias. As suas lamentações sobre «o fim da civilização técnica», «a morte do progresso», «a próxima catástrofe mundial» estão em relação directa com a pergunta «O que é a filosofia?», visto que se trata de julgar o espírito humano, a ciência. E vê-se então esta questão que, sob a sua primeira forma, surgiu da verificação empírica da pluralidade dos sistemas filosóficos antitéticos (verificação que, neste aspecto, interessa principalmente os filósofos) transformar-se, nos nossos dias, na questão do destino histórico da humanidade, isto é, um problema social que diz respeito a todo o indivíduo pensante. Desta vez, trata-se de saber até que ponto a humanidade é capaz de se conhecer a si própria, de dominar o seu próprio desenvolvimento, de ter nas mãos o seu futuro, de controlar as consequências objectivas da sua actividade cognitiva e criadora.

(Théodore OÏZERMAN. Problemas de História da Filosofia. Lisboa: Livros Horizonte, 1976, p. 50-57]

Nota d’O meu baú:

Na página Ensino da Filosofia/10º ano, encontra ligações para outros textos (e ideias) sobre o que é a filosofia.

Deixe um comentário!

Escreva o seu comentário a seguir, ou o trackback do seu próprio sítio da Web.

Respeite a netiqueta e o assunto em discussão. Ativámos a moderação de comentários para filtrar o spam; por isso, o seu comentário pode levar algum tempo a ser publicado.

Pode usar estas etiquetas:
<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>

Este blogue utiliza Gravatars. Se ainda não tem um, crie-o em Gravatar.