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Os pressupostos na filosofia e na ciência

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Talvez resida no problema dos pressupostos a principal diferença entre Ciência positiva e Filosofia. Ciência positiva é construção que parte sempre de um ou de mais pressupostos particulares; Filosofia é crítica de pressupostos, sem partir de pressupostos particulares, visto como as “evidências” se põem, não se pressupõem.

Os pressupostos na filosofia e na ciência[imagem copiada do texto
Philosophy v science: which can answer the big questions of life?]

Assim, a Geometria é toda uma construção lógica, que obedece a determinados pontos de partida, a certos pressupostos ou “dados”. A Geometria euclidiana, por exemplo, baseia-se no postulado de que “por um ponto tomado fora de uma reta, pode-se fazer passar uma paralela a essa reta e só uma”. Por outro lado, a Geometria, que é ciência de todas as espécies possíveis de espaço, como nos diz Kant, não pode definir o que seja “espaço”, partindo de uma noção pressuposta, de caráter operacional.

Ora, as Geometrias não-euclidianas não são menos Geometrias do que a que começamos a estudar nos ginásios, embora não admitam o postulado acima enunciado, preferindo afirmar, como Riemann, que “por um ponto tomado fora duma reta não se pode fazer passar nenhuma paralela a esta reta”, ou então, como Lobatchewsky: “Por um ponto tomado fora duma reta, pode-se fazer passar uma infinidade de paralelas a esta reta”. Trata-se, por conseguinte, de Geometrias igualmente rigorosas, cada qual no sistema de suas referências.

Toda ciência depende, portanto, em seu ponto de partida, de certas afirmações, que se aceitam como condição de validade de determinado sistema ou ordem de conhecimentos. E até mesmo quando se pretende abstrair de toda ordem dada, a fim de que a “indagação” ou a “pesquisa” possa determinar as verdades de maneira livre e autônoma, ainda assim se pressupõe a validade da pesquisa experimental como produtora ou reveladora de “assertivas garantidas” (warranted assertibility), para empregarmos expressões características de John Dewey em sua Lógica.

A Filosofia é, assim, um conhecimento que converte em problema os pressupostos das ciências, como, por exemplo, o “espaço”, objeto da Geometria. É, portanto, sempre de natureza crítica. Uma Filosofia que não seja crítica é, a nosso ver, inautêntica: é sempre perquirição de raízes ou indagação de pressupostos, sem partir de pressupostos particulares, mas de evidências universalmente válidas.

Eis aí uma noção geral do que entendemos por Filosofia, como estudo das condições últimas, dos primeiros princípios que governam a realidade natural e o mundo moral, ou compreensão crítico-sistemática do universo e da vida.

Entender-se-ão melhor tais palavras quando da apreciação de algumas doutrinas fundamentais, principalmente ao tratarmos do problema das relações entre Filosofia e ciência […].

Que representa a Filosofia perante a ciência? Qual a relação entre a Filosofia e as chamadas ciências positivas ou físico-matemáticas? A Filosofia é uma ciência da mesma natureza das ciências naturais, como a Física, a Química, a Astronomia, a Biologia ou, ao contrário, é ciência de ordem diversa, distinta das outras em sua essência e em seus métodos?

Não desejamos, no entanto, concluir este primeiro contacto com a indagação filosófica sem, preliminarmente, esclarecer que o termo ciência pode ser tomado em duas acepções distintas. A Filosofia será, por certo, ciência, se dermos a esta palavra o significado lato de “sistema de conhecimentos metodicamente adquiridos e integrados em uma unidade coerente”. A discriminação mais ou menos rigorosa entre Filosofia e Ciência surge quando se atribui ao segundo termo um sentido estrito como sistema de conhecimentos metodicamente adquiridos e de validade universal, pela verificação objetiva, se possível experimental, da certeza de seus dados e resultados, sujeitos sempre a correções sucessivas […].

Em conclusão, a Filosofia, entendida como “ciência” na primeira das acepções acima recordadas, tem por objeto indagar dos pressupostos ou condições de possibilidade de todas as ciências particulares.

Não é demais acrescentar que, a nosso ver, a investigação filosófica pressupõe pelo menos uma verdade — admitida à vista das verdades das ciências —, e é a capacidade sintetizadora do espírito, pela qual o homem se distingue dos outros animais, aos quais não é dado superar, integrando-os numa unidade conceitual nova e concreta, os elementos particulares e multíplices da experiência.

[REALE, Miguel. Introdução à Filosofia. 4ª edição. São Paulo : Editora Saraiva, 2007, Capítulo I, secção O problema dos pressupostos. Negritos meus]

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||| Este texto foi publicado como apoio ao Módulo inicial do programa de filosofia do 10º ano.

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