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Qualidade e gratuitidade

Enviado por em 23 de Março de 2012 – 12:03 Um Comentário |

  1. Com 244 anos, a Encyclopædia Britannica tem sido uma referência no reino das enciclopédias. A edição em papel de 2010 será a última: a editora decidiu terminar com a versão em papel, mantendo-a apenas disponível, por assinatura, na Web.

Não vou aproveitar o pretexto para retomar o recorrente problema do fim do livro em papel (ainda que acredita piamente nessa inevitabilidade, a médio-longo prazo); quero apenas relevar o facto de até a própria escassez de vendas (8 000 exemplares, para a última edição) demonstrar que o papel, quando se trata de enciclopédias (e outras volumosas obras de referência), já é, atualmente, má aposta editorial. O próprio patrão da Britannica reconhece as vantagens de uma enciclopédia online: atualização permanente, abertura e inclusão de conteúdos multimédia. Eu (pensando nos 32 volumes e cerca de 58 Kg da versão em papel) acrescento outras duas: a portabilidade (o peso) e o espaço. Não é por acaso que a versão digital tem 500 000 assinantes…

  1. Uma procura mais demorada pelos responsáveis desta morte desenhará, nem que seja em fundo esboçado, o espetro de uma outra enciclopédia online: a Wikipédia. Foi ela que “matou” também a enciclopédia digital multimédia de um dos gigantes do software: a Encarta da Microsoft. Autores de análises comparadas apregoam, com frequência, a inferioridade da Wikipédia, considerando os autores (os seus colaboradores anónimos, face às sumidades nos diversos domínios da instituição anglo-saxónica) e o escasso controlo da qualidade dos textos. A verdade é que, no que respeita à Wikipédia, isto é cada vez menos verdade, aproximando-se cada vez mais da qualidade científica da Britannica (que, por outro lado, também tem sido acusada, em determinados verbetes de determinadas edições, de imprecisão ou falta de qualificação de alguns colaboradores).
  1. Muitas das avaliações da Wikipédia estão suportadas em preconceitos, relativamente à sua gratuitidade. Está espalhada a ideia de que o que é grátis não é bom. Uma ideia que não é universalmente válida: há produtos grátis e bons; há mesmo produtos grátis melhores do que os equivalentes pagos. Refiro-me, bem entendidos, ao software. Sejam apenas dois ou três os exemplos, entre muitos possíveis. Para edição de imagem, o Photoshop é um programa de referência, entre os pagos. Custa várias centenas de euros, na casa dos mil. A esmagadora maioria dos utilizadores poderão dispensá-lo: têm o Gimp ou o Krita (nalguns aspetos, com prestações superiores às do Photoshop). Grande diferença: os últimos são gratuitos. Gratuito é também o Ubuntu, um sistema operativo alternativo: por ele paga também zero, usufruindo de um sistema mais fiável, atualizado com mais frequência e menos exigente no hardware do que o Windows da Microsoft (com preço de várias centenas de euros)…

…e a lista poderia ser longa.

  1. Muitos destes programas são open source (de código aberto). São assim designados os programas cujo código de programação foi tornado público e, portanto, é acessível; o que possibilita que qualquer utilizador o altere, adapte ou melhore. Esta é uma das razões pelas quais este software está em constante atualização: para qualquer problema que surja, num qualquer canto da Terra há de haver quem encontre a solução e a disponibilize – para todos.
  1. Um nome grande deste reino é o finlandês Linus Torvalds, o criador do Linux, núcleo do sistema operativo GNU/Linux Torvalds; está registada em seu nome a marca “Linux”, cujo uso ele supervisiona através da organização sem fins lucrativos Linux International. A sua frase mais citada é, seguramente, esta: software é como sexo – é melhor quando é livre.

Este texto foi também publicado no semanário Jornal do Centro.

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