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Ser e aparecer

  1. Um dos poemas mais citados de António Gedeão (já aqui transcrito) termina assim:

Inútil seguir vizinhos
querer ser depois ou ser antes.
Cada um é seus caminhos.
Onde Sancho vê moinhos
D. Quixote vê gigantes.

Vê moinhos? São moinhos.
Vê gigantes? São gigantes
.

…Variações poéticas de uma ideia que com frequência se repete, nas discussões mais diversas sobre os mais diversos assuntos, e se pode abreviar na fórmula “o que é verdade para ti pode não ser verdade para mim”.

  1. A ideia de que a verdade é relativa ao ponto de vista do sujeito (a minha verdade / a tua verdade) é a tese central do relativismo. Mas, por mais tentadora que seja a vestimenta com que se vista, tal tese é insustentável.

Em primeiro lugar, um relativismo que se afirme de modo absoluto (isto é, que defenda que todas as verdades – e não apenas algumas – são relativas) é (auto)contraditório: admitindo esse relativismo como verdadeiro, haveria, pelo menos, uma verdade que não seria relativa – precisamente a tese do relativismo, segundo a qual todas as verdades são relativas.

Mas essa tese também não resiste a uma análise que não precisa de ser muito profunda (basta distanciarmo-nos da ilusão que criamos muitas vezes, repetindo ideias que acabamos por tomar como obviamente verdadeiras): é logicamente impossível que duas proposições contraditórias sejam simultaneamente verdadeiras. Se é verdade que, neste momento, estou a escrever, então é forçosamente falso que não estou a escrever. Se a afirmação não está a chover é verdadeira, então a afirmação está a chover é forçosamente falsa. Generalizando, se a afirmação A é verdadeira, então a afirmação não-A não pode ser verdadeira.

  1. O que torna tão “popular” o relativismo é o facto de, sobre um qualquer assunto, ser difícil haver acordo entre todas as pessoas. Para constatar essa diversidade de opiniões, não precisamos de recorrer a áreas tradicionalmente polémicas, como a política; basta compararmos épocas ou culturas diferentes – e ela saltará à vista… fácil.

Contudo, há aqui uma confusão nem sempre suficientemente esclarecida: a confusão entre o que alguém pensa ser verdade e o que de facto é verdade. Para os medievais (argumenta-se, por vezes, exemplificando, a favor do relativismo) era verdade que o Sol girava em torno da Terra; atualmente, isso é falso. Na verdade, foi sempre falso que o Sol gira em volta da Terra; os medievais acreditavam que era verdade, mas estavam enganados – na verdade, é a Terra que gira em volta do Sol.

  1. Em algumas áreas, não é fácil saber se uma afirmação é verdadeira ou falsa. Parece-me que, no domínio dos valores, é particularmente difícil: como saber se, globalmente, a obra de Mozart é mais valiosa do que a de Beethoven?

Contudo, mesmo em casos como este, a verdade continua a não depender de quem ouve a música dos dois compositores. Vamos admitir que há quem defenda que Beethoven supera Mozart e quem defenda o contrário; se é verdade que a obra de Mozart é mais valiosa do que a de Beethoven, então qualquer tese que contradiga esta é falsa. Não pode ser simultaneamente verdade que a obra de Mozart é mais valiosa do que a de Beethoven e que a obra de Mozart não é mais valiosa do que a de Beethoven.

  1. Não adulterássemos o poema de Gedeão, e reescreveríamos os seus últimos versos:

Vê moinhos? Serão moinhos. Ou não.
Vê gigantes? Serão gigantes. Ou não
.

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Um Comentário »

  • Maria Celeste diz:

    Gosto muito deste poema. Gosto muito deste poeta.

    Leio os últimos versos desta forma:

    Vê moinhos? São moinhos.
    Vê gigantes? São gigantes. (São moinhos e gigantes para quem pensa que é isso que vê e recusa aceitar aquilo que é o ver do “outro”). À verdade vamos chegando com grande esforço e depois de muitas correcções.

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