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O texto filosófico, o computador, a argumentação

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Guardador de percursos

No primeiro dos ensaios reunidos em Guardador de percursos (Coimbra : Pé de Página, 2003) — intitulado Quando escrevo, escrevo assim — Rui Grácio, o autor, descreve o seu processo de escrita (filosófica).

Sobre as vantagens da escrita no computador, escreve

que, desde que os dedos ganharam a agilidade do teclado, [o computador] se tornou o local privilegiado de escrita. É asséptico — o que no papel surgia como emendas, rasuras, riscos e gatafunhos, no computador, dada a versatilidade do teclado, do rato e do monitor é, pura e simplesmente, corrigido. Torna-se então fácil aceder a um texto sem outros ruídos que não as imensas gralhas que nele ficaram disseminadas, resultantes de uma digitação apressada, mais preocupada e concentrada em acompanhar o pensamento e os seus insights do que com a correção gramatical ou de estilo do que ficou escrito. Esses aspetos farão parte de uma outra cerimónia a que me referirei adiante e que designo frequentemente como o «mascarar do morto» — todo o caminho de preparação das várias impressões do documento até à assunção da sua impressão final e definitiva na lisura do papel branco.

Por outro lado, o computador é perfeitamente compatível com o meu modo soluçante e algo caótico de escrever. Permite-me tornar a escrita mais próxima da velocidade do pensamento, anotar ideias ou expressões que repentinamente assomam ao espírito de uma maneira intempestiva e fragmentada e retomá-las posteriormente de uma forma ordenada, inserindo-as devidamente na cadeia textual. Para além de que é preciosa a possibilidade, na releitura que constantemente vou fazendo — seja através do monitor ou do papel impresso onde logo começo a garatujar —, poder enxertar novos fragmentos que aqui e ali são oportunos, completar ou desenvolver partes que ficaram menos explícitas ou foram menos aprofundadas, ou estabelecer soluções de continuidade onde existiam hiatos indesejáveis. Ah! Não esquecer de gravar. (p. 17-18)

E sobre a dimensão argumentativa do texto filosófico:

Deste ponto de vista, à tarefa de escrever passam a acrescer necessidades especificamente críticas, como a de proceder a uma formulação rigorosa das problemáticas e dos problemas — ou seja, mostrar da forma mais cristalina e explícita possível o que é que está em questão — a de analisar as perspetivas que sobre essa problemática são já do domínio público, a de sintetizar e avaliar as argumentações em que essas perspetivas se estribam, a de as discutir apontando-lhes aspetos não satisfatórios ou questionando-lhe a fecundidade, a de argumentar a favor de uma perspetiva própria.

Todas estas tarefas evidenciam a interação da escrita do ensaio filosófico com um necessário trabalho de investigação e de pesquisa que se tem de levar a cabo, obrigam a uma intensa atividade hermenêutica relativamente aos textos ou obras recolhidas, suscitam por vezes o recurso a bibliografias adicionais que ajudem a aprofundar e a consolidar a nossa leitura e interpretação, exigem períodos de digestão, por vezes excessivamente prolongados do ponto de vista dos prazos em que temos de apresentar trabalho. (p. 22-23. Negritos meus)

  • A ortografia do texto de Rui Grácio foi atualizada, em conformidade com o recente acordo ortográfico.
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