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The Magnificat

Tenho algumas centenas de exemplares de um objeto em vias de extinção: a cassete VHS. Nelas fui gravando, ao longo de alguns anos, “coisas” diversas, na sua grande maioria programas de televisão.

Vasculhando o que elas têm, com o objetivo de passar para dvd (e, portanto, preservar mais facilmente) o que valer a pena, tenho encontrado algumas raridades. Por exemplo, The Magnificat, um filme/documentário de Barbara Willis Sweete, que confronta a versão clássica do Magnificat de J. S. Bach

[na interpretação da orquestra barroca Tafelmusik e dos Tudor Singers]

com uma belíssima versão jazz nas vozes dos The Swingle Singers e o popular Bobby McFerrin e Ann Mortifee.

Magnificat é a primeira palavra (latina) de um hino religioso (cristão), baseado no relato que o Evangelho de São Lucas faz da visita de Maria à sua prima Isabel (1, 39-56), ambas grávidas. Conta-se aí que, em resposta à prima, Maria teria dito “A minha alma engrandece o Senhor […]”

[ou, em latim, Magnificat anima mea Dominum].

Este encontro entre as duas primas deu lugar a um culto que se difundiu no Ocidente e suscitou imensas obras de arte (como o famoso quadro de Fra Angelico, que se reproduz); o hino, que tem sido tema musical de oratórias e cantatas, é uma jubilante glorificação de Deus, como Bach faz sentir, logo na abertura, cheia de vitalidade:

Mas o Magnificat é também, segundo o espírito cristão, o reconhecimento da humildade de Maria (e das criaturas), designadamente quando se canta “Quia respexit humilitatem ancilla suae” [porque olhou para a humildade da sua serva]; por outro lado, exprime o agradecimento pelas magnificências que lhe foram concedidas [ecce enim ex hoc beatam me dicent omnes generationes eis que desde agora todas as gerações me chamarão bem-aventurada].

Esses dois versos constituem dois momentos que se podem ouver no vídeo seguinte. Dois momentos de certo modo contrastantes: primeiro, a ária da soprano

[de tom melancólico, amoroso, doce, terno]

é acompanhada por uma instrumentação de densidade rarefeita que contribui para realçar a humildade transmitida no texto: por oboé d’amore obbligato e baixo contínuo cifrado; a seguir, Omnes generationes (onde, além dos instrumentos, intervém o coro a 5 vozes) apresenta a “imagem musical” de uma multidão (ou de “todas as gerações”) através da mistura de várias linhas melódicas:

Compare-se agora esta interpretação clássica com a versão jazz acima referida (a mim, deliciam-me particularmente os improvisos do saxofone; o que acompanha o coro final que “substitui” Omnes generationes — esse, então… ;-));

Termino com a proposta de outro confronto das duas versões, em torno de “Deposuit…”, uma ária de tenor com cordas e contínuo. De acordo com o texto

[Deposuit potentes de sede et exaltavit humilesdepôs os poderosos de seu trono e exaltou os humildes],

é uma ária de bravura, com sentimentos contrastantes (depôs os poderosos; exaltou os humildes)  que Bach traduz, respetivamente, em motivos descendentes e ascendentes; à palavra Potentes corresponde um desenho melódico em movimentos descendentes, enquanto que a aspiração dos humildes expressa em Exaltavit justifica o trajeto para uma tessitura mais aguda

[“aspiração” que McFerrin traduz em saltinhos ;-)]:

[nota final: a interpretação clássica esteve a cargo, não dos intérpretes indicados no início do texto, mas de um conjunto dirigido por um especialista na música barroca: Nikolaus Harnoncourt. Os vídeos da versão jazz foram passados de uma gravação de programa televisivo numa das tais cassetes VHS: nem o som nem a imagem têm a qualidade desejável, mas foi o que se pôde arranjar. :-(]

A obra completa, pelos referidos intérpretes, tal como foi escrita por Bach:

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