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TORGA, Miguel

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Miguel Torga

Nome literário do escritor português Adolfo Correia da Rocha (S. Martinho de Anta, Trás-os-Montes, 12/8/1907 – Coimbra, 17/1/1995), Miguel Torga fez parte de um grupo de jovens estudantes (em que estiveram também José Régio, Branquinho da Fonseca e Gaspar Simões) que animou o lançamento da revista conimbricense Presença. Este movimento (de que Torga entretanto se viria a desligar) recusa certas tendências reveladas pela geração que imediatamente o precedeu (e da qual é culturalmente herdeiro), a chamada geração d’Orpheu, que iniciou em Portugal o movimento modernista.

Filho de camponeses, passou algum tempo no seminário de Lamego. Na sua obra afloram essas raízes telúricas (até no pseudónimo escolhido) e os motivos de ordem bíblica que lhe povoam o imaginário.

***

Celebrámos o seu 107º aniversário, recordando alguns dos seus poemas

SANTO E SENHA

Deixem passar quem vai na sua estrada.
Deixem passar
Quem vai cheio de noite e de luar.
Deixem passar e não lhe digam nada.

Deixem, que vai apenas
Beber água de Sonho a qualquer fonte;
Ou colher açucenas
A um jardim que ele lá sabe, ali defronte.

Vem da terra de todos, onde mora
E onde volta depois de amanhecer.
Deixem-no pois passar, agora

Que vai cheio de noite e solidão.
Que vai ser
Uma estrela no chão.

(1932)

 

 

PEDAGOGIA

Brinca enquanto souberes!
Tudo o que é bom e belo
Se desaprende…
A vida compra e vende
A perdição.
Alheado e feliz,
Brinca no mundo da imaginação,
Que nenhum outro mundo contradiz!

Brinca instintivamente
Como um bicho!
Fura os olhos do tempo,
E à volta do seu pasmo alvar
De cabra-cega tonta,
A saltar e a correr,
Desafronta
O adulto que hás-de ser!

(1960)

 

 

QUEIXA

Vida!
Que te pedi a mais
Que um mortal não mereça?
Ou queres que nenhum filho
Conheça
A plenitude?
Pude
O que me consentiste.
Mas vou triste
Do mundo.
Cavei,
Cavei,
E abri um poço sem chegar ao fundo.

(1988)

 

 

INSTRUÇÃO PRIMÁRIA

Não saibas: imagina…
Deixa falar o mestre, e devaneia…
A velhice é que sabe, e apenas sabe
Que o mar não cabe
Na poça que a inocência abre na areia.

Sonha!
Inventa um alfabeto
De ilusões…
Um a-bê-cê secreto
Que soletres à margem das lições…

Voa pela janela
De encontro a qualquer sol que te sorria!
Asas? Não são precisas:
Vais ao colo das brisas,
Aias da fantasia…

(1962)

 

 

FÁBULA DA FÁBULA

Era uma vez
Uma fábula famosa,
Alimentícia
E moralizadora,
Que, em verso e prosa,
Toda a gente
Inteligente,
Prudente
E sabedora
Repetia
Aos filhos,
Aos netos
E aos bisnetos,
À base duns insectos,
De que não vale a pena fixar o nome.
A fábula garantia
Que quem cantava morria
De fome.
E, realmente…
Simplesmente,
Enquanto a fábula contava,
Um demónio secreto segredava
Ao ouvido secreto
De cada criatura
Que quem não cantava
Morria de fartura.

(1956)

 

O meu baú tem ainda, de Torga,

  • uma citação sobre o Tempo;
  • com proposta de análise filosófica, o poema Conquista.

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