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TRABALHO e preguiça: penalização e antídoto?

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Trabalho e preguiça

Na Bíblia, no livro do Génesis, capítulo 3, versículo 19, lê-se que Deus condenou o pecado de Adão com as palavras seguintes: «Comerás o pão com o suor do teu rosto, até que voltes à terra de onde foste tirado; porque tu és pó e em pó te hás de tornar».

Como se vê, já desde o início o trabalho é considerado como um castigo, um suplício, um tormento, e a etimologia latina da palavra no-lo demonstra claramente.

Em latim, «trabalho» denomina-se labor, de onde vêm palavras tão correntes como laboratório ou a frase, já em vias de extinção, que indicava que determinada mulher se dedicava aos seus lavores. Mas trabalho não vem desta palavra latina, mas de outra, tripalium, que não era outra coisa senão um instrumento de tortura a que eram condenados os criminosos. A palavra deriva dos três paus de que era formado.

Temos, pois, que trabalho não é só sinónimo de castigo, como também de suplício e é assim que, em português, dizemos que Fulano passou por muitos trabalhos para conseguir um certo emprego, ou nos clássicos, como Cervantes no seu romance Os trabalhos de Persiles y Sigismunda, onde narra as desventuras do par protagonista […].

Contra este suplício do trabalho não há outro antídoto para além da preguiça, que está
considerada como um dos sete pecados capitais, mas que não deve ser tão grande nem tão capital quando por preguiça se deixam de cometer os outros pecados.

No meu entender, há dois tipos de preguiça, um negativo e outro positivo. O primeiro é o daquele que não tem vontade de fazer nada e, efetivamente, não faz nada; o segundo, o daquele que tem vontade de não fazer nada, mas apesar disso faz algo. Confesso que sou um preguiçoso do segundo tipo. Parece-me que tenho autêntica vocação para a vagância, mas, infelizmente, tenho que trabalhar para viver e, com muito pesar meu, faço-o.

O meu ideal de vida seria não fazer mais do que ler e ouvir música, música clássica está visto, e ver passar os dias placidamente e sem prejudicar ninguém.

Um meu amigo, profissional da vagância, daqueles que se levantam cedo para ter mais tempo para não fazer nada, dizia-me, um dia destes:

— Se todos os que não trabalhamos trabalhássemos, vós os que trabalhais não teríeis trabalho.

E convenceu-me.

Escreveu-se muito a favor do trabalho e contra a preguiça, acho que está na hora de alguém a defender; eu próprio seria capaz de escrever um grande livro a favor da preguiça se não me acontecesse ter preguiça de o fazer. Como dizia Tristan Bernard: «Passo o meu tempo a combater valentemente a minha preguiça, mas quando chego a vencê-la estou tão cansado, tão cansado, que já não tenho forças para trabalhar».

«A preguiça é o costume de descansar antes de se cansar». (Jules Renard).

«Foi graças à preguiça que tudo nasceu entre os homens. Do ano em que um dos nossos antepassados pôde passar o inverno à beira do seu lar datam as artes, as ciências, os jogos, o amor, todas as alegrias. O ócio — eis a maior alegria e a mais formosa conquista do homem». (Remy de Gourmont).

«Chegámos a um grau de imbecilidade tal que vemos o trabalho não apenas como honorável mas também como sagrado, quando não é mais do que uma triste necessidade». (Remy de Gourmont).

Como se vê, estou em boa companhia. De qualquer modo, há que confessar, falando a sério, que o trabalho não só é necessário como ainda enobrece o homem. Na Castela do Século do Ouro, o trabalho era considerado como uma desonra e a literatura da época está cheia de fidalgos famélicos que teriam considerado humilhante trabalhar com as suas próprias mãos. Inclusive, para obter alguns cargos ou distinções, era mister demonstrar que nem quem o solicitava nem os seus antepassados tinham alguma vez trabalhado.

Na Espanha periférica as coisas eram vistas muito de outro modo; assim, por exemplo, a palavra ganha-pão, que tem um sentido depreciativo em castelhano, não o tem na Catalunha ou em Valência, onde para louvar um moço diz-se que es guanya el pa (ganha o próprio pão).

Felizmente, esta ideia desapareceu, e até há membros do jet set que trabalham encarniçadamente, embora, a julgar pelo que contam as revistas cor de rosa, devem ser poucos.

[Traduzido de Carlos Fisas. Palabras que tienen historia. Barcelona: Planeta, 1992, entrada 109. Trabajo]

Peut-on être heureux sans travailler?

  • Sobre este assunto, O meu Baú publicou já um texto onde se defendia a abolição do trabalho.
  • O grande destaque do número de maio/2015 da revista Philosophie Magazine (de cujo sítio na web são copiadas as ilustrações deste texto) é a questão: pode ser-se feliz sem trabalhar? Uma resposta imediata poderá ser um sonoro sim!. Nietzsche advertia que quem não dispõe de dois terços do dia para si próprio é um escravo. Mas Hegel, contrariando talvez a maioria dos filósofos, defendia as virtudes do trabalho. Repetiu/repete-se que as máquinas haverão de substituir o homem e, portanto, libertá-lo para uma vida de ócio. Mas a história dos últimos tempos parece evoluir no sentido de uma sociedade onde trabalhamos mais do que os escravos romanos. Sobre este problema, o que pensa o leitor?

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