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UNAMUNO, Miguel de

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Miguel de Unamuno

A 31 de dezembro de 1936, morreu MIGUEL DE UNAMUNO, figura ímpar da cultura ibérica, três vezes reitor da Universidade de Salamanca e detentor de uma vastíssima obra onde ressalta o ensaio, a poesia e a novela. Nascido a 29 de setembro de 1864, foi sobretudo uma figura paradigmática de inconformado, numa Espanha à beira de um colapso social e político, num processo que ele considerava suicidário e que o deixava numa profunda angústia.

Unamuno foi demitido de reitor da Universidade no tempo de Afonso XIII, aquando do governo de Primo de Rivera, e exilado na ilha de Fuerteventura, no ano de 1924. Embarcou no comboio na cidade de Salamanca – que considerava sua –, a 21 de Fevereiro, por entre uma multidão que o aclamava. Deixou-lhes uma promessa firme que só parcialmente conseguiu cumprir:

volveré, no con mi liberdad, que nada vale, sino con la vuestra.

Foi amnistiado, em 1929, mas preferiu refugiar-se em França de onde podia continuar a intervenção que queria, através da escrita. Só voltou a Espanha em 1930, ainda com Afonso XIII no trono, mas com a monarquia já numa fase decadente e em agonia. A república foi implantada em 1931, a que se seguiriam os mais intensos e terríveis tempos da sua vida. Os tempos em que sonhou e viu gorarem-se os sagrados sonhos de uma pátria feliz, numa angústia crescente que, em 1936, se tornou insuportável.

Foi ele que proclamou a república em Salamanca, voltando a ser reitor, na mesma altura. Mas separou-se do quadro político republicano em pouco tempo. Em 1936, quando começou a guerra civil, foi mesmo demitido de reitor pelo governo republicano e, esse facto, fez com que o poder franquista, após tomar Salamanca, voltasse a nomeá-lo. Mas foi sol de pouca dura. Não esteve no cargo mais do que umas semanas, até ao dia 12 de Outubro de 1936, quando a Universidade foi palco da cerimónia do dia nacional de Espanha. É conhecidíssima a sua reacção aos viva la muerte e muera la inteligencia proferidos pelo general Milán Astray no salão de actos da Universidade. Unamuno carregava já a amargura dos quadros violentos, com execuções em massa, de alguns dos seus amigos salmantinos. Decidira não falar na cerimónia, mas as vociferações de Astray fizeram com que tomasse a palavra respondendo-lhe num discurso trágico, de improviso, cortado por diversas interrupções dos falangistas. As suas últimas palavras respondiam ao horror de uma exaltação contra a inteligência, dizendo:

Este es el templo de la inteligencia! Y yo soy su supremo sacerdote! Vosotros estáis profanando su sagrado recinto. […] Venceréis, pero no convenceréis. Venceréis porque tenéis sobrada fuerza bruta; pero no convenceréis, porque convencer significa persuadir. Y para persuadir necesitáis algo que os falta: razón y derecho en la lucha.

Nesse mesmo dia foi demitido do cargo de reitor e mantido em prisão domiciliária na casa reitoral da Universidade, onde hoje está implantado o museu que lhe foi dedicado. No dia 31 de Dezembro desse mesmo ano ali suspirou pela última vez, quando já tinha sido determinada a sua prisão efectiva e o fuzilamento. Foi o seu último acto de liberdade e revolta.

A obra que deixou é um exemplo que nos ocuparia muito mais do que as linhas que aqui dedico aos mais significativos episódios da sua vida cívica e política. Deixou um fantástico estudo sobre D. Quijote de la Mancha, vários ensaios sobre a morte e o sentimento trágico da vida, muitos poemas

(e destaco um magnífico poema sobre o Cristo de Velasquez)

e várias novelas, de que a mais extraordinária é, sem dúvida, San Manuel Bueno, mártir. Nunca conseguirei exprimir adequadamente a admiração que me inspira a sua vida, a sua obra e o seu comportamento cívico.

[Texto de Luís Jorge Matos]

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||| Brevemente, O meu Baú publicará o texto A transcendência no romance San Manuel Bueno, Mártir de Miguel de Unamuno. Para receber as novidades no seu correio eletrónico, assine-as, na barra lateral direita.

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