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A moleirinha

Mesmo sem, eventualmente, recordar que o seu criador é Guerra Junqueiro [nascido a 15 de setembro de 1850, morreu a 7 de julho de 1923], este poema é familiar à esmagadora maioria dos meus leitores menos jovens. Era leitura de um dos livros únicos do então chamado ensino primário:

Pela estrada plana, toc, toc, toc,
Guia o jumentinho uma velhinha errante
Como vão ligeiros, ambos a reboque,
Antes que anoiteça, toc, toc, toc
A velhinha atrás, o jumentinho adiante!…

Toc, toc, a velha vai para o moinho,
Tem oitenta anos, bem bonito rol!…
E contudo alegre como um passarinho,
Toc, toc, e fresca como o branco linho,
De manhã nas relvas a corar ao sol.

Vai sem cabeçada, em liberdade franca,
O jerico ruço duma linda cor;
Nunca foi ferrado, nunca usou retranca,
Tange-o, toc, toc, moleirinha branca
Com o galho verde duma giesta em flor.

Vendo esta velhita, encarquilhada e benta,
Toc, toc, toc, que recordação!
Minha avó ceguinha se me representa…
Tinha eu seis anos, tinha ela oitenta,
Quem me fez o berço fez-lhe o seu caixão!…

Toc, toc, toc, lindo burriquito,
Para as minhas filhas quem mo dera a mim!
Nada mais gracioso, nada mais bonito!
Quando a virgem pura foi para o Egipto,
Com certeza ia num burrico assim.

Toc, toc, é tarde, moleirinha santa!
Nascem as estrelas, vivas, em cardume…
Toc, toc, toc, e quando o galo canta,
Logo a moleirinha, toc, se levanta,
Pra vestir os netos, pra acender o lume…

Toc, toc, toc, como se espaneja,
Lindo o jumentinho pela estrada chã!
Tão ingénuo e humilde, dá-me, salvo seja,
Dá-me até vontade de o levar à igreja,
Baptizar-lhe a alma, prà fazer cristã!

Toc, toc, toc, e a moleirinha antiga,
Toda, toda branca, vai numa frescata…
Foi enfarinhada, sorridente amiga,
Pela mó da azenha com farinha triga,
Pelos anjos loiros com luar de prata!…

Toc, toc, como o burriquito avança!
Que prazer d’outrora para os olhos meus!
Minha avó contou-me quando fui criança,
Que era assim tal qual a jumentinha mansa
Que adorou nas palhas o menino Deus…

Toc, toc, é noite… ouvem-se ao longe os sinos,
Moleirinha branca, branca de luar!…
Toc, toc, e os astros abrem diamantinos,
Como estremunhados querubins divinos,
Os olhitos meigos para a ver passar…

Toc, toc, e vendo sideral tesoiro,
Entre os milhões d’astros o luar sem véu,
O burrico pensa: Quanto milho loiro!
Quem será que mói estas farinhas d’oiro
Com a mó de jaspe que anda além no Céu!

[Os simples. Novembro de 1888]

2 Comentários »

  • Alexandre de Macedo Marques diz:

    Tenho 79 anos, morando em S. Paulo, Brasil, desde 1954. Como acontece, o tempo vivido em Portugal ficou na memória como um filme congelado A história que decorre depois da rutura funciona como se fosse outro filme que não é a continuidade do primeiro. Com a idade, cada vez mais, o velho filme passa na nossa memória. Hoje de manhã acordei com os primeiros versos da Moleirinha repetindo-se como um mantra. “Pela estrada plana, toc,toc,toc…” Na minha memória só ficaram eles. Resolvi ir ao Google para ler os belíssimos versos do Guerra Junqueiro. Fiquei emocionado ao ver o livro de leitura da 4.a classe. Mais de sessenta nos depois, curso superior e duas pós graduações revi, encantado o livro fundamental. Lembro-me que um maestro musicou os versos resultando numa canção de grande beleza. E passei o dia a cantarolar ” Pela estrada plana…” A melodia, guardo-a, clara e límpida na memória.Pena que o tempo, implacável, continua a ” por umidade nas paredes e cabelos rancos nos homens” (F. Pessoa)

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